terça-feira, 1 de julho de 2014


Conflito de valores entre a escola e a comunidade

Tanto a escola quanto os pais devem respeitar mutuamente seus valores. (Foto: Gabriela Portilho)
Tanto a escola quanto os pais devem respeitar mutuamente seus valores. (Foto: Gabriela Portilho)
Na escola onde eu sou diretora, trabalhamos com alunos do Ensino Fundamental I, a partir dos 6 anos.  Entre os responsáveis por essas crianças, é comum encontrarmos pais de primeira viagem que trazem para dentro da instituição sua superproteção. Então, eles acompanham de muito perto tudo o que acontece com os filhos, inclusive qual foi o lápis que perderam, com quem se desentenderam e para quem emprestaram a borracha.
Numa manhã de quinta-feira, uma dessas mães chegou à escola muito zangada, dizendo que nós, funcionários da escola, éramos responsáveis pelo que tinha acontecido a seu filho. Sem entender o que ela estava falando, pedi que, calmamente, ela se sentasse na minha sala para conversar sobre o assunto. Diante da negativa, me coloquei de pé e comecei a ouvi-la. Ela despejou tudo que estava contido: sua indignação com a conduta da escola e a falta de confiança nas pessoas que trabalhavam com seu filho. “Ninguém viu um absurdo desses acontecer? O que essas pessoas fazem nessa escola?”, ela questionava.
Ainda sem entender direito o que se passava, pedi a ela que contasse o que havia ocorrido para que ficasse tão zangada. Ela me disse, então, que percebeu que o filho havia trocado o cadarço do sapato com um dos colegas. Nessa hora, confesso que tive de contar até mil para controlar minha indignação. Perguntei qual era o problema dessa troca e por que ela pensava que isso era algo tão grave. Comentei também sobre a confiança que as crianças constroem entre si e como é comum que elas troquem brinquedos e objetos nessa idade.
Mais que depressa, a mãe rebateu dizendo que isso era um absurdo, pois a escola deveria respeitar as regras que a família estabelece com os filhos. Ela havia ensinado ao menino que os pertences jamais deveriam ser emprestados, doados ou trocados.
Sob ameaças, ela me intimou a tomar providências em relação a o que aconteceu e disse que havia anotado o nome completo da professora e o meu também para emitir um boletim de ocorrência na delegacia. Pedi mais uma vez que ela se sentasse para conversar sobre o assunto e disse que gostaria de saber mais sobre esses valores. Assim, eu poderia ajudá-la no que fosse preciso.
Chamei uma funcionária e solicitei que trouxesse um suco para nós. Pedi também à secretária da escola que dissesse às demais pessoas que queriam conversar comigo para retornar um pouco mais tarde, pois o atendimento àquela mãe se alongaria.
A mulher me contou todos os acordos que havia estabelecido com o filho e disse que fora criada acreditando que tudo o que tinha era resultado de muito trabalho, muito suor. Essa criação era reproduzida com o menino. Concordei que é custoso adquirir bens materiais e trabalhoso educar nossos filhos para respeitar esse conceito, mas a indaguei quanto à solidariedade. A escola é um espaço onde tudo é de todos. O bom estado das carteiras da sala de aula, por exemplo, deve ser zelado por todos, pois a turma do período seguinte utilizará o mesmo material. O mesmo acontece com os livros, pratos, talheres, mesas, bolas e brinquedos.
Ela ficou pensativa, mas insistiu que a troca de cadarços entre seu filho e um colega não poderia mais acontecer, porque, hoje, era um caderno e, amanhã, poderia ser outra coisa qualquer. A mulher também pediu para conversar com a professora da turma, que escutou o que ela tinha a dizer e se comprometeu a conversar com o grupo sobre o assunto.
Pedi à mãe que repensasse essas atitudes com carinho e falei que contaria com a ajuda dela para construir um relacionamento melhor com a escola. Deixei claro que entendia que essas mudanças não aconteciam do dia para a noite, mas não há impasse que uma boa conversa não resolva. Ela sorriu e também me pediu para compreender sua formação.
Depois desse episódio, não pensei duas vezes antes de transformar o assunto em tema de uma reunião de formação com os professores para socializar as providências tomadas. Claro que, inicialmente, eles também se mostraram indignados com o ocorrido, mas logo começaram a compreender a ação da mãe. Após a reflexão, combinamos que o assunto também seria pauta de uma reunião de pais. Para isso, convidamos uma psicóloga para abordar valores e ética. Na ocasião, também retomamos a missão da escola e entregamos para cada pai os nossos combinados com as turmas.

segunda-feira, 30 de junho de 2014


Como falar sobre aborto com os alunos?


Ao ser questionado sobre aborto, o educador deve procurar descobrir qual é a real motivação da pergunta
Há algum tempo, uma professora me contou que uma vez havia sido questionada por uma aluna sobre sua opinião em relação ao aborto. No momento ela desconversou, mas depois, preocupada, me procurou para saber como proceder.
Uma pergunta como essa dificilmente ocorre fora de contexto, apenas por curiosidade. Por isso, é muito importante acolher a aluna e buscar descobrir a verdadeira intenção da pergunta. Às vezes, pode haver um problema por trás dessa curiosidade aparentemente despretensiosa, como a gravidez da garota ou de uma amiga que ela esteja tentando ajudar.
Por isso, a orientei a perguntar para a garota “por quê” ela queria ouvir sua opinião. Dessa forma, é possível se aproximar da verdadeira intenção da pergunta e perceber que a resposta mais adequada, não é a posição pessoal sobre o aborto, mas sim, fornecer informações que mostrem os prós e os contras sobre o tema.
Aborto é um assunto extremamente polêmico e cheio de armadilhas. A legislação brasileira o permite somente em casos de estupro, de gravidez com risco à vida da mãe ou se o feto for anencefálico (uma má-formação rara do tubo neural caracterizada pela ausência parcial do encéfalo e da calota craniana). Em qualquer outra circunstância, a interrupção da gravidez é proibida no país. Mas não podemos fingir que isso não acontece.
Cálculos do Ministério da Saúde revelam que 3,7 milhões de mulheres entre 15 e 49 anos induziram aborto – 7,2% do total de mulheres em idade reprodutiva.  Isso faz do aborto a quarta maior causa de óbito materno no país, vitimando 9,4 de cada 100 mil gestantes, especialmente as de menor poder econômico.
As mulheres decidem interromper a gravidez hoje, decidiram ontem e vão decidir sempre. Mesmo que o custo dessa decisão traga risco de morte. E isso é sério! Contudo, ainda estamos longe de uma solução definitiva para essa questão. Enquanto para os favoráveis à proposta, o aborto é um direito da mulher; os contrários defendem que o feto não é parte do corpo dela, mas sim outro organismo que depende temporariamente do útero da mãe para se desenvolver. Abortar, portanto, seria cometer um crime. E isso nos leva necessariamente para o foco da polêmica: o conceito de vida humana.
Quando começa a vida?
A questão fundamental do aborto está no conceito de vida. E é aí que a coisa complica.
De forma sucinta, podemos dizer que há quatro diferentes interpretações para o fenômeno. Há o grupo que defende que a vida surge no momento da fertilização do óvulo. Outros acreditam que o marco inicial da vida é a implantação do óvulo fecundado no útero, chamada cientificamente de nidação. Um terceiro grupo afirma que a vida se inicia a partir do momento em que o feto começa a ter atividade cerebral. E, por fim, há o grupo baseado na postura filosófica existencialista, segundo a qual só há vida quando a pessoa se põe no mundo e toma consciência de sua existência.
Como se vê, da fecundação ao nascimento, não há um instante biológico privilegiado, com o qual todos concordem. Na maioria dos países em que o aborto é permitido, o prazo limite para a interrupção da gestação é definido pelo conceito da viabilidade, ou seja, o momento a partir do qual o feto, com o auxílio de aparato médico, é capaz de viver fora do útero. Isso geralmente se dá por volta da 24ª semana de gestação.
Promova um debate com a turma
Essa polêmica não é nova, e vale a pena ser debatida em sala de aula. Nosso papel como educadores é incentivar o conhecimento e ajudar os alunos a interpretarem os fatos para poderem formar suas opiniões de acordo com suas visões de mundo. Para isso, sugiro a seguir um breve encaminhamento do assunto com a turma:
1a etapa
Inicie a conversa mostrando que gerar uma vida é da natureza da mulher e do homem, mas ser mãe ou pai pode ser uma escolha. Para isso, o melhor caminho é usar os métodos contraceptivos para prevenir a gravidez. Infelizmente, nem todo mundo tem informação adequada e motivação para se prevenir, ou acesso a métodos contraceptivos, o que  leva muitas mulheres a se depararem com o dilema de interromper ou continuar a gravidez. Problematize o assunto com a turma perguntando: O aborto pode ser uma solução menos penosa entre duas alternativas difíceis? Ou a lei deve permanecer como está?
2ª etapa
Divida os alunos em grupo e peça para pesquisarem os argumentos a favor e contra a legalização do aborto. Depois, peça que cada grupo apresente suas considerações e conclusões. O professor pode sistematizar no quadro os principais argumentos e instigar os alunos a defendê-los ou refutá-los.

sexta-feira, 27 de junho de 2014


Cuidados ao se comunicar com alunos jovens e adultos


Na escola onde trabalho, conta-se uma história já folclórica sobre um professor que tentou elogiar o trabalho de uma estudante, mas não teve muito sucesso. Segundo essa história, a aluna estava enfrentando várias dificuldades para realizar uma atividade e teve que refazê-la várias vezes. Na última vez, o professor lhe disse: “Seu trabalho ficou tão bom que só me resta rasgar elogios!”.
A aluna imediatamente começou a chorar: “Puxa vida, professor, me esforcei tanto para fazer o trabalho e agora você diz que vai rasgar?!”
Obviamente, a aluna não sabia que a expressão “rasgar elogios” era um  reconhecimento do bom trabalho que havia feito. Essa falha de comunicação deixou-a desanimada e fez com que o professor precisasse explicar o significado dessa expressão e reafirmar a qualidade do trabalho dela.
Minha motivação para escrever sobre a forma de nos comunicarmos com os alunos vem de uma situação que vivi recentemente. Após as apresentações de seminários em grupo, planejei uma aula para avaliar o trabalho em conjunto com os alunos. Nessa avaliação, evito apontar erros individuais e abordo problemas que foram recorrentes em todas as apresentações. Peço que os alunos comentem as apresentações, mas evitando apontar falhas específicas dos colegas, referindo-se sempre aos grupos. Minha intenção é evitar expor os estudantes, especialmente os que têm mais dificuldades, pois essa é uma das primeiras atividades do curso. Gosto desse tipo de avaliação porque os alunos mais desenvoltos ficam à vontade para falar do processo que viveram e das dificuldades que enfrentaram, deixando claro para os mais tímidos que os desafios são os mesmos para todos.
Uma das alunas estava extremamente ansiosa durante a devolutiva. A certa altura, ela perguntou: “mas professor, vou ser reprovada por causa dessa apresentação?”. Como achei que a pergunta poderia confundir os alunos sobre o principal objetivo da conversa, respondi: “Não se preocupe, você foi muito bem! Sua apresentação foi ótima!”. O que eu disse era realmente verdade e, com isso, ela se acalmou e pudemos continuar a discussão coletiva.
No entanto, alguns dias depois, outra estudante me procurou para falar sobre essa avaliação. “Professor, há alguns dias você elogiou aquela aluna, mas isso não foi bem encarado pela classe. Vários alunos foram bem na apresentação e você não falou nada. Foi uma postura muito injusta da sua parte”, ela disse.
Fiquei absolutamente surpreso com a conversa. Não achei que um comentário superficial, feito de maneira casual, apenas para acalmar uma aluna e dar continuidade à discussão, pudesse causar tanto desconforto  em outros estudantes. As palavras que a aluna usou me fizeram pensar se de fato eu havia cometido alguma injustiça.
O que  a levou a reclamar tão enfaticamente? Ciúmes da colega que foi elogiada? Necessidade de atenção? Será mesmo que fui injusto? Será que esse foi um sentimento geral da classe ou exclusivo da aluna que reclamou? Confesso que até hoje não sei muito bem o que a motivou.
Quais as lições desse episódio? Para mim, ficou a ideia de que tenho que ter ainda mais cuidado com o que digo aos alunos. Mesmo comentários feitos despretensiosamente podem acabar desgastando as relações em sala de aula e complicando a tarefa como professor.
Sabemos que, em qualquer nível de ensino, o educador pode representar uma autoridade importante, inclusive para tratar de assuntos que vão além dos conteúdos escolares. Não é raro observar alunos que reproduzem falas ou posturas de professores, ou que pedem conselhos aos docentes sobre assuntos extraclasse.
Quando lidamos com jovens e adultos, o cuidado pode ser ainda maior. Alunos da EJA costumam atribuir muito valor aos comentários dos professores e uma palavra mal encaixada pode fazer estragos bem grandes, podendo levar a problemas de relacionamento na sala de aula, abalos na autoestima dos estudantes e até influenciar a desistência da escola.

quinta-feira, 26 de junho de 2014


Uma criança igual às outras


Foto: Shutterstock

A mãe de um aluno da turma de 4 anos marcou uma reunião comigo e com a diretora da escola. Seu filho, apesar de ser novato na instituição, já havia se adaptado à rotina, à professora e aos colegas. Então, nossa hipótese para o motivo da conversa era que ela gostaria de obter mais informações sobre o projeto pedagógico e quais seriam as aprendizagens da turma, já que, desde o início do ano, a família se mostrava muito participativa e atenta às orientações escolares.
A razão da reunião, no entanto, era completamente diferente. A mulher e o marido queriam comunicar à escola que o filho era portador do vírus HIV.
A notícia foi muito inesperada. Eu e a diretora chegamos a nos perguntar como uma criança que estava sempre correndo e brincando ativamente com os colegas no parque poderia ser portadora de um vírus tão grave?
O casal nos disse que, até o momento, não pretendiam compartilhar tal diagnóstico com toda a escola para evitar que a criança fosse tratada de maneira diferente. No entanto, na semana anterior, a mãe havia presenciado uma das professoras cuidando de um ferimento no joelho de uma garotinha da sala de seu filho sem qualquer proteção de luvas, enquanto outras crianças consolavam a colega. A atitude era muito zelosa por parte de todos, porém, não havia nenhum cuidado com relação à prevenção de contato com o sangue.
De fato, eu e a diretora reconhecemos que, muitas vezes, nem nós usávamos luvas ao socorrer as crianças, apesar de a Secretaria da Saúde ter nos orientado a usá-las sempre em qualquer procedimento, como lavar, estancar e socorrer pequenos acidentes que, numa escola de Educação Infantil, acontecem quase diariamente. Em geral, minha prioridade era acalmar os professores e as crianças quando algo acontecia.
Bem, depois do impacto da notícia, a família nos contou a história da criança. O casal havia adotado o menino quando a mãe biológica faleceu em decorrência da Aids, alguns dias depois do parto. Eles sabiam que ele era soropositivo e garantiam o acompanhamento médico constante.
Nessa reunião, resolvemos respeitar a vontade dos pais e não contar para mais ninguém da escola sobre o diagnóstico do menino. O que faríamos seria compartilhar com todos os funcionários e professores que tínhamos um aluno portador do vírus HIV, mas sem identificá-lo. Assim, todos deveriam prestar muita atenção com a proteção durante o tratamento de ferimentos.
O grupo todo recebeu a notícia com respeito e ninguém ficou questionando quem poderia ser a criança. A equipe escolar concordou que esse era um bom alerta, pois, com o passar do tempo, acabamos deixando de lado as orientações que havíamos recebido. Relembramos, então, onde estavam as diversas caixas com luvas descartáveis e deixamos uma em cada sala, em cima do armário de alvenaria, longe do alcance das crianças, mas facilmente acessível por adultos. Além disso, deixamos uma caixa na janela do banheiro, visto que era lá que lavávamos os ferimentos.
A criança portadora de HIV continuou brincando e sendo feliz, sem ter seu estado de saúde exposto para ninguém. Essa ação evitou que, de alguma maneira, ela fosse tratada de maneira diferente, sendo protegida demais ou, por outro lado, fazendo com que alguém ficasse com medo de abraçá-la ou beijá-la, atitudes que não trariam qualquer risco a ninguém.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Como transformar a reunião de pais em um momento formativo para toda a comunidade

A reunião de pais é uma grande oportunidade para estreitar a parceria da escola com as famílias. No encontro, os professores e os gestores têm a chance de conhecer mais de perto a realidade dos alunos e compartilhar o que está sendo desenvolvido pela instituição e quais são os resultados.
Porém, é comum a escola ter dificuldade para garantir a participação dos pais e preparar a pauta da discussão. Essas também eram preocupações das gestoras da EMEF Manoel Gomes dos Santos, em Ferraz de Vasconcelos, São Paulo. Apesar dos responsáveis comparecerem, muitos não tinham tempo para permanecer no local. Além disso, as gestoras sentiam falta de trabalhar temas que fossem além da aprendizagem das crianças.
Na visita, Maura Barbosa, consultora pedagógica de GESTÃO ESCOLAR, fala sobre como antecipar o que será discutido na reunião, convidar os familiares e ir além da sala de aula.
Para saber o resultado desta conversa, assista ao vídeo.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Qual é a função da orientação educacional?


“Não volto mais para aquela sala. Não estou aqui para educar e sim para ensinar!”, diz um professor visivelmente nervoso ao sair da minha sala.
“Vou tirar meu filho dessa escola. Aqui todos o perseguem. A culpa de tudo o que acontece na sala é sempre dele!”, desabafa, com voz alterada, a mãe de um aluno de 7º ano.
“De verdade, Flávia! A professora, além de nos desrespeitar, gritando e não explicando o que a gente pede, escreve errado um monte de palavras. Tem certeza que ela é professora?”, reclamam alguns alunos de 9º ano.
“Fui procurado por uma mãe reclamando que você não alterou o cronograma das avaliações. Disse que o filho estará viajando para a Disney e não estará presente durante as provas. Perguntou-me o que custava mudar as datas?”, relata o diretor/mantenedor da escola.
Esses são apenas alguns exemplos de situações recorrentes na prática do orientador/coordenador pedagógico. Mas, afinal, quem é essa figura na escola? No que consiste sua função? É relevante para a instituição?
Ao recordar as situações acima, e em plena Copa do Mundo, não pude deixar de pensar na analogia com a função do técnico das seleções. O que se espera de um técnico? No mínimo, que tenha experiência suficiente fpara contribuir e enriquecer a performance de cada um dos jogadores, certo? Mas essa é uma conclusão simplista demais!
Assim como a expectativa que se tem de um técnico é que ele tenha clareza de onde quer chegar, ou seja, dos objetivos, espera-se ainda que ele saiba definir como alcançá-los,isto é, que utilize boas estratégias. Pois são essas também as expectativas que envolvem o trabalho do orientador pedagógico. Ter clareza das metas implica considerar todo o contexto: o da equipe docente, das famílias, da gestão e principalmente do aluno, sempre o nosso foco. Para a equipe docente, a orientação pedagógica deve agregar conhecimento, experiência e companheirismo.
O conhecimento não é necessariamente sobre o conteúdo a ser trabalhado, mas principalmente sobre as diferentes maneiras de fazê-lo, já que na realidade esses são os maiores desafio para o professor. O conhecimento aqui se refere ao desenvolvimento humano e às implicações pedagógicas implícitas  nesse processo – que definitivamente é uma das deficiências na formação dos educadores.
A experiência da orientação deve abranger também um período de docência. Não há nada mais rico para um orientador do que sua experiência como docente, o chão da sala de aula. Há por trás desse requisito a possibilidade da reciprocidade, de se colocar no lugar do outro, além da maior empatia que isso causa aos professores. Não raro ouvimos deles frases do tipo: “Pra ele (a) – orientador – é fácil falar. Nunca entrou numa sala de aula. Não sabe como funciona”. E, de fato, faz toda a diferença você ter acumulado em sua bagagem diversos papéis na Educação. Se analisarmos bem, a experiência de orientação pedagógica começa na docência. O educador que se envolve verdadeiramente com a vida escolar de seus alunos atua, muitas vezes, como seu orientador.
E, finalmente, o companheirismo. Deve haver na figura do orientador uma postura acolhedora às inúmeras angústias vindas dos professores, famílias e alunos. Acolhimento não significa ser conivente, tampouco omisso, mas sim aliviar as dúvidas e anseios por meio do conhecimento sobre o ser humano. Afinal, a legitimação do nosso papel se dá por aquilo que podemos oferecer a mais do que os demais educadores já têm: o refinamento da psicologia do desenvolvimento humano. Estar ao lado e disponível, buscando junto com os envolvidos as soluções e melhores estratégias para os desafios, é, claramente, demonstrar o companheirismo necessário à função.
Quando me recordo da época em que atuava como professora, percebo que não tive em minhas orientadoras a referência para o que hoje é minha prática. Havia sempre uma sensação de que a relação com os professores não passava de questões burocráticas – bilhetes a serem entregues aos alunos, comunicados da direção e planejamentos de festas e eventos. Ou seja, uma função protocolar, repleta de lacunas às necessidades reais da equipe docente. Talvez essa realidade tenha, de certa forma, me inspirado a compor minha função e atuação como orientadora pedagógica, buscando perceber o que há de positivo em cada um e contribuir com o que pode ser melhorado. Ser corresponsável tanto pelos êxitos quanto pelas falhas que certamente ocorrem durante nosso trabalho. Incentivar e promover a formação continuada dos educadores e, finalmente, ser uma figura de autoridade (e não autoritária) para as diversas instâncias da escola: professores, famílias, gestores e, principalmente, alunos.

segunda-feira, 23 de junho de 2014


Recesso escolar: o que fazemos nesse período?

Durante as férias, a escola não para. Aproveito para fazer a organização, limpeza e manutenção dos espaços junto com os funcionários. (Foto: Gabriela Portilho)
Durante as férias, a escola não para. A gestora e os funcionários cuidam da despensa e de outras áreas que precisam de limpeza e manutenção. (Foto: Gabriela Portilho)
Por conta da Copa do Mundo no Brasil, este ano tivemos que fazer algumas adaptações no calendário escolar. Por isso, tanto os alunos como os professores já estão desfrutando das férias desde 12 de junho, com previsão de retorno a partir do dia 14 de julho.
Durante esse período, costumamos realizar um check-up nas dependências da escola, sem deixar de lado a parte administrativa, que é o coração de toda instituição.
Inicialmente, costumo me reunir com as funcionárias da limpeza e da cozinha para avaliar o primeiro semestre: o que deu certo e o que não deu? O material recebido foi suficiente? Também abro espaço para que avaliem o trabalho realizado na escola e digam se algum setor deixou algo a desejar, se houve trabalho em equipe e o que podemos melhorar. Após as avaliações, traçamos metas para conseguir oferecer um atendimento de melhor qualidade para os nossos alunos e para os demais membros da comunidade escolar.
Cozinha
Nesse espaço, prestamos muita atenção na forma como a merenda está sendo armazenada. Na despensa, a organização dos alimentos é feita por tipo e data de vencimento dos produtos. Nunca deixamos sobras nas prateleiras. Se há produtos em excesso e que não serão consumidos nas férias, solicitamos o armazenamento no depósito do departamento da merenda escolar.
Com esse espaço organizado, passamos para a lavagem da geladeira e do freezer, que são esterilizados com produtos de limpeza e desligados para a redução do consumo de energia durante o recesso. Uma semana antes de começar as aulas, nós lavamos os equipamentos novamente e os ligamos para receber alimentos. Limpamos também os fogões, azulejos, pisos, mesas, pias, armários, área de serviço e vidros.
Limpeza e manutenção
As funcionárias da limpeza têm inúmeras salas e espaços para limpar, sem contar vidros, carteiras, cadeiras, cortinas, lousas, armários e mesas. Sendo assim, traçamos uma meta para que nada fique de fora. Para isso, destacamos sempre o trabalho em equipe: cada pessoa fica responsável por um setor da escola. Todas as funcionárias utilizam galochas e luvas de borracha durante o trabalho.
Também aproveito esse período para acionar outros setores responsáveis pelas trocas de lâmpadas e consertos na parte elétrica, encanamentos, jardinagem e outros.
Setor administrativo
No setor administrativo, aproveitamos para colocar tudo em ordem: listas de alunos, planilhas do programa Bolsa Família, digitação das notas e frequências dos alunos, arquivos de matrículas, históricos escolares, pastas com documentos internos e externos, resoluções, circulares e memorandos, cobranças e envios de históricos e relatórios de alunos de outras unidades escolares. Durante esse período, também recebemos pais que procuram a escola para pedir transferências, solicitar documentos e realizar novas matrículas.
Ações para o próximo semestre
Depois de organizar toda a escola com as funcionárias, me reuni com os professores para conversar sobre o empenho e a colaboração dos alunos na limpeza dos banheiros e da sala de aula. Ficamos de elaborar durante o período de recesso algo para promover essa ação no semestre que vem.
Também solicitei aos docentes que, na primeira reunião durante as horas de atividade coletiva (HAC) após o regresso, avaliassem o semestre que passou e elaborassem metas e ações para os próximos meses.
Como você pode ver, a escola continua funcionando mesmo sem a presença dos alunos. No entanto, devo destacar que, sem eles, esse espaço fica sem vida e entristecido, porque é a agitação e a energia desses meninos e meninas que nos contagiam de tal maneira que já estamos contando no dedo o tempo para o retorno deles!
E você, diretor ou diretora, já traçou metas para o segundo semestre? Os funcionários participam dos seus afazeres nesse período? Compartilhe conosco a sua experiência.