sexta-feira, 30 de maio de 2014

Como quebrar o silêncio dos alunos em casos de abuso sexual?

A abordagem aos alunos vítimas desse tipo de violência deve se apoiar no acolhimento, sigilo e encaminhamento do caso às autoridades. (Fotos: montagem – Shutterstock e Lucas Landau)
Durante um período de minha atividade profissional como educadora sexual, mantive no instituto em que trabalho um serviço de orientação sexual por telefone (saiba mais aqui). Certo dia, atendo a uma das ligações e, do outro lado, está um garoto profundamente triste, decepcionado e magoado com a postura de sua mãe.
Ele me contou que, por várias vezes, acordava no meio da noite com a sensação de estar sendo observado e percebia que sua mãe havia baixado seu pijama para olhar seu pênis. Segundo ele, ela o observava por um bom tempo e ele, constrangido e amedrontado, fingia continuar dormindo.
Esse garoto foi profundamente violentado, não fisicamente, mas de forma psicoemocional. Como imaginar que uma mãe seja capaz de uma atitude como essa? Como um garoto pode lidar com tamanho constrangimento?
Fiz questão de trazer este exemplo para desmistificar algumas ideias sobre abuso sexual e provocar uma reflexão sobre as formas de violência vividas por nossas crianças e adolescentes. Algumas dessas ideias equivocadas são preconceituosas, e podem contaminar a percepção do educador, fazendo com que ele não dê ouvidos a um aluno por confundir o relato de uma agressão com fantasias próprias da idade. Isso dificulta o enfrentamento da questão e a atenção às vítimas ao mesmo tempo que aumenta a vulnerabilidade da criança e encobre o agressor.
Principais mitos sobre o abuso sexual
- Meninos não sofrem abuso sexual;
- Quem abusa sexualmente é sempre o padrasto;
- Mulheres não cometem abuso sexual, muito menos mães;
- Crianças pequenas não sofrem abuso sexual;
- Casos de abuso sexual só ocorrem em classes sociais pobres.
O que pode ser considerado abuso sexual?
Qualquer forma de exposição da criança ou do adolescente a estímulos sexuais que ultrapassem os direitos humanos ou o respeito ao seu desenvolvimento físico, emocional e psicossexual pode ser considerado abuso sexual.
O abuso sexual ocorre quando uma pessoa subjuga outra por meio da violência, do abuso de poder, da autoridade ou da diferença de idade para obter prazer sexual. O abuso pode incluir carícias, manipulação dos órgãos genitais, voyeurismo, pornografia e atividade sexual com ou sem penetração vaginal, anal ou oral, com ou sem uso de violência.
As vítimas de abuso sexual se sentem aterrorizadas, confusas e muito temerosas e, não raro, têm muita dificuldade em contar para alguém que foram vítimas desse tipo de violência, mesmo para pessoas de sua completa confiança. Em geral, elas se calam por não quererem prejudicar o abusador ou provocar uma discórdia familiar. Ou pior: temem ser consideradas culpadas ou castigadas pelo agressor.
O bem-estar da criança ou do adolescente deve ser sempre a nossa prioridade. Portanto, a escuta ativa (quando se ouve de fato o que o outro diz), o acolhimento e a proteção do aluno são muito importantes. O professor pode ser, em muitos casos, o único adulto com quem ele ou ela podem contar.
Como conduzir uma conversa sobre casos de abuso?
Converse com o aluno num ambiente tranquilo e sem interrupções, incentivando-o a falar abertamente. Não emita opiniões ou faça julgamentos. Depois de ouvir todo o relato, manifeste seu apoio fazendo o aluno perceber que o que aconteceu não foi culpa dele. Esse fortalecimento é muito importante para ele conseguir falar sobre o incidente com a família e diminuir seu sofrimento emocional.
O próximo passo é entrar em contato com a família, mas, antes de fazer isso, pergunte ao aluno quais são as pessoas com quem ele aceita conversar sobre o assunto e chame esse familiar para ir à escola.  Como esta não é uma conversa fácil, se você sentir necessidade, peça ajuda à equipe gestora ou o acompanhamento de uma psicóloga, caso a escola tenha acesso a esse profissional. Como disse no post anterior (confira aqui), às vezes, a reação do  familiar pode ser a de negar o ocorrido. Nesses casos, a decisão mais sábia é não criar conflito e encaminhar a questão diretamente às autoridades (veja no final deste post onde fazer a denúncia).
Assegure o sigilo absoluto em relação ao assunto dentro da escola. É fundamental respeitar a privacidade do aluno e respeitar o tempo dessa criança ou adolescente para que ele se sinta capaz de continuar na escola e interagir normalmente com seus colegas.
É importante também deixar claro para os alunos, durante o trabalho de Educação sexual, que o corpo é propriedade de cada indivíduo e que qualquer tentativa de contato indesejado ou exposição a situações em que o aluno sinta sua privacidade invadida deve ser rechaçada e comunicada para um adulto de confiança. E vale sempre lembrar que a escola é um lugar onde eles poderão encontrar pessoas de confiança.

quinta-feira, 29 de maio de 2014


Avaliação: professor dever ter coerência e olhar para todo o processo

Alunos da professora Dulcemar Therezo Esteves Martins, da CEMEJA Professor Dr. Andre Franco Montoro, em atividade.
Alunos realizam atividades na CEMEJA Professor Dr. Andre Franco Montoro
Um tema que nunca sai da pauta de discussões de uma escola é avaliação. Como saber se os alunos aprenderam o que foi ensinado? Qual o melhor instrumento para isso? Na EJA não é diferente.
Essa é uma discussão complexa. Não pretendo fazer aqui um tratado teórico e aprofundado, mas sim discutir dois pontos que acho essenciais para quem está no dia a dia da sala de aula.
O primeiro é a coerência. Colocando de uma maneira bem simples: não podemos avaliar o que não ensinamos. Isso parece óbvio, porém, ao analisar avaliações minhas e de alguns colegas, percebo que é muito comum escorregarmos nesse ponto.
Vamos imaginar a seguinte situação: um professor dá uma aula expositiva sobre a água, explicando sua fórmula química e suas propriedades. Na avaliação, que é feita na forma de uma prova escrita, o professor dá um texto sobre falta de água e propõe questões que exigem leitura e interpretação.
Reparem na incoerência: ensina termos e conceitos, avalia interpretação de texto. Apesar de estar tratando do mesmo assunto geral (nesse exemplo, água), existe uma discrepância muito grande entre o que esse professor ensina e o que avalia. Não seria estranho se os alunos tivessem mau desempenho, pois na realidade não foram ensinados!
Só porque o mesmo assunto geral foi tratado na aula e na avaliação não é garantia de que exista coerência. É preciso que a abordagem nesses dois momentos seja semelhante para que exista coerência. Por exemplo: se o professor aborda interpretação de textos na aula, deve haver interpretação de textos na sua avaliação.
Esse é só um exemplo de algo que vejo acontecer muito e contra o qual tenho de me policiar cotidianamente para não fazer também.
O segundo aspecto que julgo importante é encarar a avaliação como processo. Acho que o modelo de dar aulas durante o bimestre todo e fazer uma prova final como única forma de avaliação informa pouco sobre o desenvolvimento dos alunos. Muitos educadores sentem-se desconfortáveis com esse modelo, pois existe apenas um momento em que se olha para o desempenho dos estudantes. Nesse modelo, não é possível comparar o conhecimento dos estudantes antes e depois da intervenção do professor.
Muito mais adequado seria avaliar várias vezes o aluno ao longo das aulas. A meu ver, o professor deve criar situações para que os alunos executem a mesma tarefa mais de uma vez em contextos semelhantes (porém não idênticos) e observar como evoluem ao longo do tempo.
Nas turmas de EJA (onde sempre temos pouco tempo), isso significa avaliar duas ou três vezes os alunos num mesmo tipo de atividade. Um exemplo da área de Ciências: se a sua intenção é avaliar se os alunos encontram informações em um texto, você pode pedir que eles realizem essa tarefa em um texto sobre água, em outro sobre solo e em outro sobre ar. Analisando o desempenho dos alunos em cada momento, você pode planejar suas intervenções e verificar se, ao fim do processo, eles estão de fato realizando melhor a tarefa ou se serão necessárias outras intervenções.É claro que, dentro dessa visão, avaliação não é sinônimo de prova escrita. Existem muitas formas de avaliar. A tabela que acompanha esta matéria sobre avaliação no site NOVA ESCOLA é um bom começo para pensar sobre o assunto.
Na EJA existem muitos alunos com alfabetização recente e pouca familiaridade com a escrita. Por isso, é interessante averiguar a aprendizagem de conteúdos específicos das áreas (Geografia, História, Ciências) com modalidades de avaliação que dependam menos da escrita. Dessa forma, podemos separar quem não sabe determinado conteúdo de quem não sabe escrever sobre esse conteúdo.

quarta-feira, 28 de maio de 2014


Quando a formação não impacta na prática

Leninha Ruiz faz formação com professores da EMEI Maria Alice Pasquarelli. (Foto: Gabriela Portilho)
Leninha Ruiz faz formação com professores da EMEI Maria Alice Pasquarelli. (Foto: Gabriela Portilho)
Recentemente, assumi um projeto de formação de educadores num espaço diferente da escola, na Instituição Beneficente. O lugar fica numa comunidade de baixo poder aquisitivo e muitos problemas sociais. A ideia surgiu após os gestores da instituição notarem que muitas crianças de 9 a 12 anos tinham dificuldades na leitura e na escrita. Por isso, acharam necessário dar subsídios às educadoras para que elas realizassem uma série de atividades focadas na alfabetização com crianças de 5 a 12 anos no período contrário da escola.
A solicitação dos gestores foi para que eu fizesse reuniões de formação durante quatro meses. Achei a proposta bem tranquila, já que alfabetização é um conteúdo que estudo bastante e, além disso, o grupo com o qual eu trabalharia era pequeno – apenas quatro educadoras. Ledo engano… Está sendo um desafio e tanto!
Diagnóstico dos saberes das educadoras
Para começar, elaborei uma situação-problema para que as professoras explicitassem seus saberes acerca dos processos de ensino e aprendizagem da leitura e da escrita. Solicitei que escrevessem  que atividades realizariam se tivessem que assumir uma turma para alfabetizar. Duas delas – as que já tinham atuado em sala de aula – conheciam as fases e hipóteses de escrita. As outras duas, no entanto, não conheciam – elas cursavam Pedagogia e só tinham experiência como cuidadoras de crianças.
Assistimos às gravações de professoras propondo situações de leitura e escrita. Explicitei a diferença entre fazer um diagnóstico e realizar uma situação de aprendizagem. Pedi que, nas duas semanas seguintes, elas fizessem o mapeamento dos saberes das crianças com as turmas delas. Assim, poderíamos planejar como encaminharíamos o projeto. As quatro educadoras se mostraram interessadas e toparam a ideia.Diante disso, preparei os dois primeiros encontros com o foco em como é importante valorizar o que as crianças já sabem e como fazer um diagnóstico do que conhecem sobre a escrita. Lembro que seria um conteúdo totalmente novo para duas pessoas, portanto, me preocupei em mostrar alguns vídeos que explicam como a criança constrói suas hipóteses de escrita. Um dos que utilizei foi o “Construção da escrita – primeiros passos”, do Programa de Formação de Professores Alfabetizadores (Profa).
O conteúdo da formação aplicado na prática
Passadas as duas semanas, as professoras haviam feito apenas alguns diagnósticos. No entanto, nenhuma delas pediu para as crianças interpretar o que escreveram e duas delas chegaram a usar uma atividade retirada da internet em que os pequenos tinham que escrever o nome e apontar quais eram as vogais e quais eram as consoantes, uma proposta totalmente equivocada segundo a concepção de aprendizagem que procurei explicitar nas formações. Fiquei estarrecida, porque, aparentemente, a minha formação não havia atingido o objetivo de transformar a prática delas! Me perguntei onde eu havia errado e por que elas não faziam os diagnósticos conforme tínhamos planejado.
Depois disso, retomei os conteúdos da formação e preparei mais encontros utilizando a tematização da prática de boas situações de leitura e escrita. Também incluí na formação o acompanhamento de alguns momentos de atividades com as crianças.
Acompanhamento da prática
Só quando vi a prática das educadoras me dei conta do que estava acontecendo. Até então, elas podiam planejar livremente o que fazer com as crianças e optavam por fazer atividades tais como ler histórias, propor que cada criança escolhesse um livro para ler ou brincadeiras e produções artísticas para fazer e realizasse algumas experiências culinárias. Elas não se sentiam capazes e responsáveis por ajudar as crianças a ler e escrever. Na visão delas, isso seria um reforço escolar e não era seu papel.
Bem, com essa nova perspectiva, solicitei uma reunião com os gestores para combinar o que poderíamos fazer para que as educadoras se sentissem capazes e responsáveis pela inserção das crianças no mundo da leitura e escrita.

terça-feira, 27 de maio de 2014


Segurança sob medida: como evitar a violência na escola, da escola e à escola?


Um fato que nos chama a atenção quando tratamos da segurança escolar é perceber que a escola foi, durante muito tempo, um espaço seguro e sagrado, imune e imaculado de todo e qualquer tipo de violência vinda de fora. Um grande questionamento feito por pais e educadores é: como e por que isso se perdeu?
É impossível falar sobre segurança nas escolas sem antes pensar nas origens da chamadaviolência escolar. E pensar sobre isso implica considerar, no mínimo, dois contextos distintos: o extramuros, em que a violência vem de fora, e o intramuros, que se refere aos casos que ocorrem dentro da instituição.
Quando ela vem de fora, na maioria das vezes, trata-se de um tipo de violência que reflete as desavenças e disputas que, na verdade, nada têm a ver com a instituição. A escola é frequentada por grupos que buscam acertar contas com desafetos ocorridos fora daquele lugar e, portanto, a os problemas, nesse caso, poderia acontecer em qualquer outro local.
Nesse contexto, há discussões acirradas quanto à utilização de equipamentos como câmeras externas, identificadores eletrônicos e catracas que, teoricamente, inibiriam ou impediriama violência. Há estudos que mostram o enorme interesse mercadológico em difundir a ideia de que somente blindando o local é possível afastar a violência. Além disso, evidentemente, nossas instituições, vocês sabem disso, sofrem forte pressão das famílias para garantir a segurança de seus filhos e protegê-los do mundo externo. Nada contra a aquisição, na medida do possível, de equipamentos que possam amenizar a preocupação dos educadores e das famílias com possíveis invasões. Mas podemos pensar também em outros caminhos e estreitar a relação da escola com seu entorno pode ser um deles.
Independentemente de pertencer a uma região de maior ou menor poder aquisitivo, a escola, como instituição social, deve (ou deveria) se aproximar da comunidade local: comerciantes, prestadores de serviços, vizinhos, lideranças comunitárias, etc. A proposta de conhecer e reconstruir a história da instituição e do bairro em que ela está é uma boa estratégia. Nessa direção, convidar representantes da comunidade para uma conversa com alunos é o início para a construção de uma relação de corresponsabilidades e de pertencimento. Há, certamente, nos depoimentos dos comerciantes e moradores mais antigos, uma riqueza cultural e de informações relevantes tanto para o trabalho pedagógico quanto para aprevenção da violência externa. Desde os alunos pequenos até os adolescentes, a oportunidade de conhecer e trabalhar questões referentes à realidade daquela comunidade enriquece as relações e favorece um trabalho em rede.
A experiência de Heliópolis, na zona sul de São Paulo, é um bom exemplo do que estamos falando. A EMEF Campos Salles, com base em seguidos episódios de violência e ameças externas, construiu sua rede de proteção contando com a participação efetiva da comunidade. Houve intenso trabalho por parte da gestão e de todos da equipe em envolver os moradores daquela região no processo de Educação. Acertadamente, o gestor clareou para a comunidade que Educação não é responsabilidade somente da escola. O processo envolve outros setores, outros personagens. E o resultado foi um espaço sem muros ecuidado por todos os atores daquela comunidade. Não estou aqui defendendo que seja possível ou viável reproduzir na íntegra a experiência de Heliópolis. Porém estou afirmandoque estreitar as relações com o entorno, num processo dialógico e cooperativo, contribui para a prevenção da violência associada às invasões do mundo externo. Por exemplo, um simples telefonema do senhor Carlos, da padaria, compartilhando com a escola que alguns sujeitos estranhos à comunidade estão rondando a região, pode antecipar um evento inesperado. Ainda sobre a segurança necessária contra a violência externa, antes da exigência de investimentos financeiros por parte das escolas em equipamentos, há que se expandir a discussão acerca de políticas públicas nessa área. Mas essa já é outra discussão…
Outro tipo de violência também presente e motivo de grande preocupação é a violênciaintramuros. Ou seja: a violência da escola e à escola. Ambas relacionam-se entre si e também com o clima presente na instituição. A violência da escola é representada por atitudes muitas vezes arbitrárias e autoritárias que algumas instituições adotam. Simbolicamente, diz respeito às relações coercitivas estabelecidas pelos adultos/autoridades, bem como à imposição de regras que possam ferir o sentimento de justiça, necessário a um clima escolar favorável. Embora simbólica, trata-se de uma violência que, aos poucos, minatodo o processo de construção do conhecimento e de relações interpessoais saudáveis.
E, por último, há o tipo de violência à escola. Pensemos juntos: os atos intencionais dedepredação ao patrimônio ou de agressão aos profissionais da instituição permitem pensar na hipótese de que são manifestações negativas contra a instituição ou contra as pessoas que ali trabalham. E surge a pergunta: quais razões inspiram tamanha violência? Muitas vezes a resposta se encontra naquelas ações ligadas às arbitrariedades que ocorrem no espaço educacional. Ou seja: há entre esses dois tipos de violência possíveis relações de causa e consequência. E aí? O que fazer para garantir a segurança de nossos alunos, professores, funcionários, enfim, de toda a escola? Continuaremos essa discussão na próxima semana e nosso foco será a segurança contra a violência da e à escola.

segunda-feira, 26 de maio de 2014


Como a prática na sala de aula inspira minha atuação como coordenadora


A partir da observação da minha prática como professora, aprimorei minhas ações e intervenções como coordenadora pedagógica. (Foto: Manuela Novais)
Com base na reflexão sobre minhas atividades como professora, aprimorei minhas ações e intervenções como coordenadora pedagógica (Fotos: Manuela Novais)
Educação de qualidade é uma busca constante das instituições de ensino. Entretanto, para que se torne realidade, são necessárias ações que sustentem um trabalho em equipe e uma gestão que priorize a formação docente. Nessa perspectiva, cabe a nós, coordenadores pedagógicos, ter sensibilidade para identificar quais são as principais necessidades dos professores e desenvolver um trabalho que vise à qualificação de suas práticas.
Como contei para vocês no texto da semana anterior, atuo como professora em uma escola e como coordenadora em outra. Quando assumi a coordenação – nessa época, eu já tinha alguns anos de experiência docente –, eu não queria desperdiçar o meu intenso processo formativo me tornando uma fiscalizadora das rotinas escolares, atividade que era comum ao antigo cargo de supervisor, substituído pelo de coordenador por volta da década de 1990. Muito pelo contrário, minha intenção era me tornar uma parceira dos professores, promovendo o crescimento do grupo com momentos de reflexão e de formação.
Para atingir esse objetivo, passei a observar a minha própria prática como professora. Ao fazer isso, compreendi o que os docentes realmente vivenciam em sala e, assim, aprimorei minhas ações e intervenções como coordenadora pedagógica.
Então, no meu papel de docente, procurei aplicar em classe tudo o que aprendi com meus colegas (professores e coordenadores)  durante as reuniões de formação na escola. Entre os conhecimentos, estão a organização da rotina, o planejamento e a realização de projetos, sequências didáticas e atividades habituais, a distribuição dos conteúdos, as intervenções, a relação com a família, entre outros.
E, para enriquecer minha atuação como coordenadora, com base na observação da minha sala de aula, levantei algumas questões que poderiam me ajudar a dar o suporte adequado aos professores:
  • Como o coordenador pode contribuir no planejamento da rotina, de atividades e de intervenções do professor?
  • Que ações contribuem de fato para o crescimento profissional do docente e o que burocratiza sua função?
  • O que o coordenador deve apresentar para os responsáveis pelas crianças numa reunião de pais de maneira que eles compreendam o que a escola ensina e como os alunos aprendem?
  • Quais cuidados o coordenador deve ter para não ser visto como um fiscalizador de práticas, mas um parceiro?
  • Como analisar o trabalho do professor sem expor sua prática? Como transformar o resultado dessa análise em processo formativo?
Hoje, vejo a pessoa que ocupa o cargo de coordenação como alguém que acompanha a dinâmica das aulas dos professores e o desempenho dos alunos. Para fazer isso, ela orienta a metodologia de ensino, investe em formações que suprem as principais necessidades dos docentes e informa a comunidade sobre os feitos da escola.
Por esse prisma, o coordenador não é mais aquele sujeito que possui um “superpoder” de assessorar, acompanhar, controlar e avaliar o trabalho docente, mas aquele que constrói com os professores o seu trabalho diário. Seu papel envolve uma atuação em grupo e, dessa maneira, exige o exercício constante de pensar, descobrir e saber o modo de avançar nas ações. Atuando em sala consigo enxergar melhor esse papel e assim de fato ser parceira dos professores que coordeno. Tento identificar seus saberes, suas inquietações e suas aprendizagens e necessidades, tudo isso  com base no contato direto com a sala e com os materiais que produzem.  Pensar sobre a prática com base na prática é sempre produtivo e é  por isso que estamos aqui trocando ideias, não é mesmo?

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Abuso sexual: o que a escola pode fazer?

No dia 18 de maio, várias cidades do país promoveram uma série de atividades para lembrar o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Aproveito a data para tratar desse assunto tão importante e delicado aqui no blog também. E a pergunta inevitável é: O que a escola e os professores podem fazer para combater esse crime tão odioso?
O cotidiano escolar geralmente fortalece os vínculos dos alunos com o professor e faz dele, muitas vezes, o interlocutor preferencial quando a criança ou o adolescente sofre algum tipo abuso sexual. Mesmo quando o aluno não conta nada, o professor geralmente percebe alterações no comportamento que podem sinalizar que algo de muito errado está acontecendo.
Durante um curso sobre o papel do professor na Educação sexual, fui questionada por um professora que viveu uma situação assim. Ela me disse:
– A minha aluna de sete anos de idade estava sofrendo abuso sexual por parte de seu padrasto. Chamei a mãe para conversar, e ela se manteve fria durante meu relato, tendo a cara de pau de me dizer: “Não é possível! Ele é um homem trabalhador, colocou a gente dentro da casa dele, não bebe, bota comida dentro de casa… No fundo ele é um homem bom, só tem esse pequeno defeito”. Eu fiquei chocada e não me contive. Disse coisas muito duras a essa mulher e ameacei denunciá-los à polícia se ela não tomasse uma providência. Sabe o que ela fez? Tirou a menina da escola. O que a gente pode fazer em casos como esse? Como proceder diante do abuso sexual?
Não podemos nos calar ou fingir que o problema não é nosso, encobrindo as situações de abuso e exploração contra crianças. Mas isso precisa ser feito com alguns cuidados para não perder a pessoa mais importante para a segurança da criança, a mãe ou responsável direto.
Nesse caso em específico, a professora criou um confronto com a mãe da menina, e isso é tudo o que precisamos evitar. Sei que é difícil ouvir o que essa mãe disse e ainda ser cordial e compreensiva com ela. Mas, em casos como esse, temos de nos manter frios e saber que a mãe tem um papel fundamental na vida da criança. Precisamos ter muito tato e visão estratégica para sensibilizar a mãe, para que ela fique ao lado de seu filho ou filha.
Quando uma mãe recebe a notícia de que sua filha está sendo abusada sexualmente, uma das reações possíveis é a incredulidade e a negação. Essa postura tende a ser mais frequente em situações em que a família não tem garantido os direitos básicos de um cidadão, como ter onde morar, dormir ou o que comer, dependendo para isso do suspeito de agressão. Portanto, temos de agir com calma, ouvir o que essa professora ouviu e, mesmo assim, buscar a cumplicidade da mãe para garantir a segurança da filha, encorajando-a a dar um fim nessa situação e denunciar o agressor.
Em casos como esse, uma abordagem inteligente do professor seria inicialmente mostrar que entende a situação em que essa mãe se encontra e ressaltar que, ainda assim, a segurança da criança é fundamental. A partir daí, é preciso ajudar a mãe a pensar com quem a criança pode ficar para evitar o contato com o agressor. Caso o comprometimento da mãe não aconteça, o caminho é seguir as recomendações dos órgãos competentes para realizar a denúncia, que pode ser feita de forma anônima.
A quem recorrer?
Em caso de suspeita de violência sexual, o Unicef Brasil recomenda acionar o Conselho Tutelar, a Vara da Infância e da Juventude ou as Delegacias de Proteção à Criança e ao Adolescente e as Delegacias da Mulher. É possível ainda fazer denuncias anônimas pelo Disque 100. O serviço funciona diariamente das 8h às 22h, inclusive nos finais de semana e feriados. As denúncias recebidas são analisadas e encaminhadas aos órgãos de defesa e responsabilização, conforme a competência, em um prazo de 24 horas. A identidade do denunciante é mantida em absoluto sigilo.
Por fim, compartilho com vocês o vídeo de lançamento da campanha Brasil na Defesa da Infância, da ONG de direitos humanos Childhood Brasil, estrelado pelos craques do futebol Neymar e Daniel Alves (veja aqui).

quinta-feira, 22 de maio de 2014

A Copa do Mundo já chegou
na nossa escola

Foto: Gabriela Portilho
Temas ligados ao evento foram incluídos no planejamento das aulas de Geografia e de várias outras disciplinas. Foto: Gabriela Portilho
Como o nosso país é sede da Copa do Mundo, a febre dos alunos pelo jogo de futebol aumentou estrondosamente nos últimos meses. Confesso que não havia pensado em desenvolver algo sobre o assunto. Estava focada nos demais projetos e sobrecarregada de afazeres burocráticos. Fui procurada pelo professor Giuliano, de Educação Física, que me trouxe ideias sobre como aproveitar esse momento nas várias áreas de conhecimento.
Havíamos recebido a edição nº 269 de NOVA ESCOLA (acesse aqui) com muitas dicas interessantes e a levamos para a reunião de equipe com o intuito de elaborar o Projeto Copa na Escola. Durante duas semanas, discutimos os prós e contras de incluir o tema em nosso planejamento. Ficou evidente a variedade de opiniões sobre o evento, estimuladas pelas ações populares conturbadas que vemos no noticiário. Nos propusemos, então, a trabalhar com os alunos a diversidade cultural que veremos após a chegada desses povos e pensar em como poderíamos recepcioná-los em nosso país. É como se estivéssemos recebendo uma visita em nossa casa, quando separamos as melhores louças e cozinhamos com capricho.
Nosso projeto começou no dia 28 de abril e seguirá até 11 de junho, pois no dia da abertura da Copa os alunos entram em férias. Planejamos um esquema de atividades por ano e por áreas de conhecimento que ficou assim organizado:
Educação Física (para todos os anos): exibição de vídeos sobre ética, companheirismo e o respeito à diversidade cultural, jogo de futebol com estudo das regras oficiais e confecção de painel com as datas dos jogos e de tabuleiros de dedobol.
Para os 1ºs anos:
  • Arte: trabalho com as obras do pintor Alfredo Volpi (1896-1988);
  • Língua Portuguesa: pesquisa de nomes dos jogadores brasileiros e confecção de bingo de nomes;
  • Matemática: análise da quantidade de jogadores e de times, e organização de uma tabela de preferência dos alunos pelos jogadores;
  • História: estudo sobre os anos em que o Brasil foi campeão;
  • Geografia: painel com bandeiras e nome de todos os países que participarão da Copa.
Para os 2ºs e 3ºs anos:
  • Arte: pesquisa sobre o fuleco, mascote da Copa, confecção de desenhos e atividades sobre o tema;
  • Língua Portuguesa: caça-palavras de países que participarão da competição e elaboração de painel com textos de curiosidades sobre essas nações;
  • Matemática: tabulação dos resultados das pesquisas realizadas e criação de tabela da Copa com datas e locais dos jogos;
  • Geografia e História: estudo sobre os países participantes, a cultura dos povos e roupas típicas.
Para os 4ºs e 5ºs anos:
  • Arte: criação de uma maquete de um estádio de futebol;
  • Língua Portuguesa: confecção de textos informativos para o painel de atividades e panfletos;
  • Matemática: resolução de situações-problema sobre vitórias e derrotas de times, criação de gráfico e tabela para acompanhar os resultados;
  • História: históricos das copas anteriores e das premiações da seleção brasileira;
  • Geografia: bandeiras de todos os países com localização e pesquisa sobre a Rússia, país-sede da próxima Copa;
  • Ciências: aulas sobre a alimentação saudável dos atletas e suas condições físicas.
Com tudo isso, entramos definitivamente no clima.