quarta-feira, 21 de maio de 2014

      

Como formar professores leitores

Para incentivar os professores a ler mais, a coordenadora criou um clube do livro. A ideia é que cada um trouxesse de casa pelo menos um livro que já tinha lido e revezasse com os colegas. Foto: Gabriela Portilho
Para incentivar os professores a ler mais, a coordenadora criou um clube do livro. Foto: Gabriela Portilho
Ler é importante e isso ninguém mais discute! Já sabemos que as pessoas que leem frequentemente ampliam seus saberes e conhecem diferentes culturas e pontos de vista. Então, como pode um professor não gostar de ler?
Sempre fiquei muito intrigada com essa questão… Toda vez que a conversa na escola era sobre os livros que estávamos lendo por lazer, gosto e prazer, alguns professores diziam que gostariam de ler tanto quanto nós e perguntavam como arrumávamos tempo para fazer isso.
Certamente alguma coisa havia acontecido no percurso para que não reservassem uma parte do seu dia para mergulhar nas aventuras, suspenses e emoções que a literatura proporciona. Achei, então, que eu deveria fazer alguma coisa, afinal, professores leitores são ainda melhores nas suas práticas pedagógicas!
Reunião de formação
Planejei uma formação com o objetivo de influenciar os professores para que lessem mais. Eu já conhecia bem o grupo com o qual trabalhava e tinha o diagnóstico bem claro: sabia quem gostava de ler o quê, quem já havia sido leitor ativo e queria voltar a ler com frequência e quem precisava de um estímulo.
No primeiro encontro, levei vários livros e textos e organizei sobre a mesa com bilhetinhos.
Poesias para seu deleite: se emocione com Drummond, Cecília Meirelles e companhia! Esse bilhetinho foi acompanhado por quatro livros de poesia.
Crônicas para se divertir e rir muito! Além de um livro de crônicas da Martha Medeiros, levei também uma coletânea de textos do Walcyr Carrasco de quando ele escrevia na VEJA SÃO PAULO.
Contos de assombração: você vai ficar com medo! Utilizei alguns do Programa de Formação de Professores Alfabetizadores (Profa), realizado pelo Ministério da Educação (MEC), e encontrei outros na internet.
A proposta era que cada um escolhesse alguns textos (eles não tinham mais de duas páginas) para ler e depois selecionasse um que tivesse gostado muito para compartilhar com o grupo.
Foi um momento bem descontraído, cultural e prazeroso. Os professores não queriam parar a leitura e, antes mesmo de pedir que compartilhassem com o grupo, já começou um alvoroço de professor querendo ler para o colega um trecho que o havia divertido ou emocionado.
Clube do Livro
Minha proposta final era que cada um trouxesse de casa pelo menos um livro que já tinha lido e gostado para fazermos um rodízio entre nós.
No mesmo dia, quando voltaram para dar aula no período da tarde, alguns professores já trouxeram os exemplares. Para organizar o empréstimo, elaborei uma ficha na qual faziam a recomendação literária (clique aqui para acessá-la) e anotavam quem pegou, em que dia e qual a data que deveria devolver.
O bacana foi que vários funcionários e estagiários também quiseram participar do Clube do Livro, fazendo com que alguns exemplares tivessem fila de espera.
Outra descoberta foi ver que algumas funcionárias cobiçavam poder ler os livros do canto de leitura das salas de aula, que elas observavam durante a limpeza do espaço. Não tive dúvidas: organizei uma caixa com vários livros de literatura infantil e deixei disponível para elas. Foi um sucesso! Na hora do almoço, sempre estavam lendo.

terça-feira, 20 de maio de 2014


Escola: lugar de meninos e meninas? Não! Espaço de pessoas

Certa vez, recebi em minha sala uma aluna de 6º ano recém-chegada de outra escola. Os professores me pediram informações da menina por não terem conseguido desenvolver nenhuma aproximação ou interação com ela. Depois de longos minutos de conversa acolhedora, perguntei por que ela teria saído da escola onde estudava desde a Educação Infantil. Ela respondeu: “Briguei com o professor de Educação Física e fui transferida”. Perguntei se gostaria de me contar a história, o que tinha acontecido… E aí ouvi o seguinte relato: “É que sempre tive a coxa gorda, sabe? Quando sento, tenho dificuldade de ficar com as pernas fechadas. Então, numa aula de Educação Física, sentada no chão com as pernas estendidas, sem que eu notasse, minhas pernas se separaram. Mesmo com professor falando ‘fecha as pernas!’, eu sem querer relaxava e elas abriam. Aí ele ficou nervoso e falou: ‘Tá parecendo uma putinha assim com as pernas abertas!’. Fiquei mais nervosa ainda e mandei ele para aquele lugar…”.
Chocante, não? E, claro, quando o caso chegou à direção pela versão do docente, a ênfase foi o desrespeito da aluna à autoridade do professor que só estava corrigindo sua postura. É evidente que a violência de gênero sofrida pela garota colocou em risco toda e qualquer possibilidade de ela confiar nos adultos daquela escola.
Mas o que é violência de gênero? Para iniciar nossa discussão de hoje, é necessário que tenhamos clareza de que sexo biológico e gênero não são sinônimos. O sexo – feminino ou masculino – é de caráter biológico e, portanto, definido até mesmo antes do nascimento. Já o gênero diz respeito à maneira de ser, de agir e de pensar da mulher e do homem, fortemente influenciada pelas relações sociais, pela cultura e pelo momento histórico vigente. Portanto, o gênero é outra construção social (assim como o tema que tratamos na semana passada).
Antes mesmo de conhecer a existência da palavra pessoa, o bebê aprende com as primeiras palavras que existe uma “mamãe” e um “papai” e, em seguida, que existem “meninas” e “meninos”. Isso porque nossa cultura prioriza o sexo para diferenciar as pessoas. Nessa direção, com o ingresso na escola, tanto meninas quanto meninos já conhecem sua identidade sexual e, ainda que superficialmente, qual o seu papel correspondente. E a escola, de maneira eficaz, acaba por colaborar para que o significado de ser menina e de ser menino seja devidamente compreendido. Na maioria das vezes esse esclarecimento é feito por mensagens subliminares, ou seja, por mensagens das quais não se tem consciência, mas que apresentam a vantagem de não demandar nem reflexão, nem justificativa. Assim, desde os primeiros anos da Educação Infantil, há por parte dos educadores certa reprodução da ideologia que sustenta não só as diferenças entre o universo masculino e feminino, como também as regras que orientam posturas, atitudes, sentimentos e suas manifestações, como no caso da aluna em questão.
Na hora dos brinquedos, por exemplo, para os meninos são oferecidas as bolas e os carrinhos, e para as meninas, as bonecas e as panelinhas. Ou seja, para os meninos as oportunidades são de exploração espacial, desenvolvimento motor e contato social mais intenso, e para as meninas a reprodução do papel de mãe, zelosa e doméstica. Além dos brinquedos, também há nas ilustrações que acompanham as histórias a reprodução dessa ideologia que coloca os homens em maior interação com a dinâmica da vida do que as mulheres. Aliás, lembremos, por exemplo, da maneira como os livros descrevem a história da humanidade. Há, claramente, uma ideologia androcêntrica (centra na figura do homem)! A começar pela convenção de usar o termo “homem(ns)” ao se referir às pessoas em geral, à humanidade. Não só esse termo, mas todos os outros que adotam o gênero masculino para abranger a totalidade: alunos, pais, operários, trabalhadores etc. Tanto na ficção quanto na vida real, há uma prevalência em descrever os heróis com ênfase em sua coragem, suas lutas e seu poder de dominação. E, de maneira polarizada, a figura feminina é descrita por sua fragilidade e seu sentimentalismo. Em suma, nos estereótipos construídos ao longo da história, os homens são fortes, corajosos, agressivos, ousados e insensíveis. Já as mulheres são frágeis, recatadas e indefesas.
A violência de gêneros está por trás desses modelos e do fardo que se carrega em vivenciá-los, uma vez que não é dado ao homem o direito de expressar verdadeiramente seus sentimentos e, tampouco à mulher, o direito de ousar e dinamizar sua própria vida. Exagero? Claro que não! Mesmo com todos os avanços e conquistas sociais, as pesquisas comprovam, por exemplo, as diferenças salariais ainda presentes nos universos feminino e masculino. Percebam que a realidade do “macro” social é reforçada contínua e sistematicamente pela realidade do “micro” – no nosso caso específico, pela escola.
Não raro, ouvimos nas escolas frases como: “Menina senta de perna fechada”, “Meninos não choram”, “Fila dos meninos, fila das meninas”… O papel do coordenador/orientador é também o de analisar junto com os professores a qualidade do material didático, bem como das atividades propostas. Sugerir que, mesmo usando um material que reforce os estereótipos, os professores devem promover debates que possibilitem uma visão crítica dos papéis sociais desenvolvidos pelos homens e pelas mulheres. Devemos abrir espaços para que as diferenças de sexo necessariamente não impliquem as de gênero. Ou seja: tanto os homens choram, têm medos e inseguranças, quanto as mulheres são ativas, determinadas e corajosas. Podemos buscar, na realidade dos próprios alunos, exemplos concretos que inspirem uma transformação real nesse modelo de comportamento masculino e feminino prescrito pela sociedade.
Nossa postura, nossa linguagem e nossas ações refletem todo o sistema de pensamento coletivo e, consequentemente, transmitem modos de pensar, sentir e atuar na sociedade. Sem dúvida há na docência o predomínio do sexo feminino. Pois, então, educadoras, pensemos em estratégias que superem de fato a discriminação, o preconceito e a violência de gêneros, construindo junto aos nossos alunos a liberdade de simplesmente ser humano!

segunda-feira, 19 de maio de 2014


Prevenção da Aids: uma abordagem com os professores


Aula de Educação Sexual no Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Pernambuco. Foto: Eduardo Queiroga
Professores formadores e coordenadores pedagógicos, hoje eu gostaria de falar mais diretamente com vocês.
Há mais de 30 anos o mundo trava uma batalha contra a Aids. Esses esforços têm envolvido uma série de investimentos, que vão das pesquisas laboratoriais para o desenvolvimento de novos medicamentos e exames diagnósticos mais rápidos e eficientes ao trabalho de prevenção por meio de campanhas na mídia e da atuação dos professores em sala de aula.
O fator principal para trabalhar a prevenção da Aids na escola é a tomada de consciência de que esse não é um problema apenas dos mais jovens.
De acordo com o Boletim Epidemiológico HIV/Aids, produzido pelo Ministério da Saúde, de 2003 a 2012 as maiores taxas de diagnósticos da doença foram observadas em pessoas de 30 a 49 anos. Além disso, foi registrada também uma tendência de aumento nas taxas de detecção da doença entre jovens de 15 a 24 anos e adultos com 50 anos ou mais.
A leitura fria e objetiva dos números deixa claro que o HIV não tem nenhum tipo de preconceito. Ele infecta a todos independentemente de estado civil, sexo, idade, etnia ou condição social. Basta ter relações sexuais sem camisinha com uma pessoa infectada para se contaminar.
E como será que nós, adultos, estamos lidando com esse fato? Estamos sendo bons exemplos para nossos alunos? O que é preciso saber para fazer um trabalho efetivo de prevenção na escola? É isso o que você confere a seguir.
Como estruturar o trabalho de formação?
Na minha experiência como formadora de educadores, desenvolvi um roteiro de capacitação que tem ajudado os professores a desenvolver seus trabalhos de prevenção da Aids nas escolas.
1a etapa: Ampliar os conhecimentos sobre a doença
É importante que todos os professores tenham clareza sobre algumas informações básicas sobre a doença: o que é Aids, como ela se processa no corpo, qual seu agente causador, os meios de transmissão e as formas de prevenção.
Você pode acessar os posts sobre Aids já publicados aqui no blog para esclarecer algumas dessas questões com o grupo de professores durante as reuniões de formação. Confira aqui alguns deles:
Outra boa fonte de consulta é o portal do Ministério da Saúde totalmente voltado para o tema.www.aids.gov.br
2a etapa: Vamos falar de sexo
A relação sexual é a principal forma de transmissão da Aids. Então, debater questões relativas à sexualidade é fundamental para identificar situações de risco de contaminação a que os alunos possam ser submetidos. Para isso, é importante entender o que é sexualidade e como ela se desenvolve nas crianças e adolescente. Para uma abordagem inicial dessas questões, você pode utilizar alguns vídeos do Instituto Kaplan em que eu abordo diferentes aspectos da sexualidade para propor uma discussão com o grupo.
3a etapa: Conhecer as políticas de prevençãoAgora, junte seu conhecimento sobre Aids, sexo e sexualidade na adolescência, e conheça as políticas de prevenção desenvolvidas pelo Ministério da Saúde: os fatores de risco e proteção que são adotados, o conceito de vulnerabilidade, os serviços disponíveis e as principais formas de prevenção, diagnóstico e tratamento da Aids no Brasil. Muitas dessas informações estão disponíveis no portal aids.gov.br
4a etapa: Definição dos conteúdos
Baseado no conhecimento que você adquiriu sobre o tema e na realidade dos alunos, faça um levantamento coletivo e uma leitura crítica sobre os conteúdos que podem ser utilizados de forma interdisciplinar nas conversas com os alunos sobre prevenção. Nesse momento, é importante atentar para as diferenças cognitivas de cada faixa etária e encontrar a abordagem mais adequada a cada uma delas. Minhas sugestões de leitura para esse momento são: o PCN de Orientação Sexual, o Guia de Orientação Sexual – Diretrizes e Metodologia e o Projeto Quebra Tabu, do Instituto Kaplan
5a etapa: Planejamento das abordagensDefinidos os conteúdos, o próximo passo é aprender sobre metodologia participativa, pensar em abordagens e selecionar materiais apropriados para tratar os temas com seus alunos. Aqui no próprio blog você pode encontrar algumas sugestões de dinâmicas e jogos.
6a etapa: Avaliação
Esse é o momento de monitorar e avaliar se o trabalho está mobilizando os alunos e produzindo o resultado esperado.
Para esta aprendizagem e reflexão sobre a importância da avaliação do  trabalho de prevenção da Aids, indico um excelente artigo de Ricardo Ayres, professor de Medicina Preventiva da Universidade de São Paulo (USP), voltado especificamente para essa questão (baixe o artigoaqui).

sexta-feira, 16 de maio de 2014


Três ferramentas para traduzir textos de PDF


Se você costuma navegar na internet em busca de livros ou artigos acadêmicos, já deve ter notado que boa parte dos materiais disponíveis para consulta online ou para download está em formato PDF, um padrão de arquivo aberto para troca de documentos eletrônicos. Até aí, tudo bem. Hoje há inúmeros leitores de PDF, tanto para computador como para celular e tablet. O problema é quando o texto está escrito em inglês ou em outro idioma que não dominamos.
Mas isso já não é mais motivo de preocupação. Saiba que existem alguns programas que traduzem arquivos de PDF para o português! Mas nem tudo é perfeito. Em geral, as versões gratuitas desses programas traduzem apenas um número pré-definido de páginas. Outro inconveniente está no fato de os tradutores contarem com bancos de dados limitados, não reconhecendo algumas palavras, além de não possuírem “conhecimento” linguístico para traduzir expressões idiomáticas ou figuras de linguagem. De todo modo, essas ferramentas podem lhe dar uma mãozinha com aquele artigo que você tem apenas meia hora para ler ou aquele texto que você só encontra em alemão.
Confira, a seguir, três boas opções:
Google tradutor 
Quando o serviço da gigante de tecnologia foi lançado, em 2006, o programa só traduzia idiomas árabes. Atualmente é possível verter textos para mais de 90 idiomas.
Plataformas: todas, com conexão de Internet.
Como funciona: você pode copiar o texto ou link direto para a caixa de texto, selecionar o idioma de origem do documento (no canto superior esquerdo da tela) e o idioma para tradução (à direita), e clicar em traduzir. Se o arquivo em PDF está salvo no seu computador, você pode utilizar a opção “traduza um documento”, localizada abaixo da caixa de diálogo. Depois de carregar o arquivo, o  texto traduzido é carregado em uma nova aba do navegador. Mas, atenção: o tradutor não suporta arquivos muito longos.
É bacana porque: não precisa ser instalado, podendo ser utilizado diretamente no navegador da internet.
Multilizer
Com uma interface simples e intuitiva, o programa traduz 27 idiomas e cria uma nova versão PDF, mantendo imagens, tabelas, planilhas e a diagramação do documento original.
Plataformas: Windows Vista, Windows 7 ou Windows 8 e conexão de Internet.
Como funciona: após baixar e instalar (disponível aqui), basta executar o programar, selecionar o arquivo a ser traduzido, escolher o idioma nativo e o de destino e clicar em “Iniciar Tradução Automática”.
É bacana porque: em sua versão gratuita, é possível traduzir arquivos de até 15 páginas. Em caso de arquivos maiores, pode-se pagar apenas pela tradução das páginas excedentes.
Free Language Translator
Baseado no mesmo sistema de tradução do Google, este programa traduz mais de 50 idiomas e suporta arquivos nos formatos DOC, PDF, TXT, HTML ou RTF.
Plataformas: Windows XP, Windows Vista, Windows 7 ou Windows 8 e conexão de Internet.
Como funciona: depois de instalar e executar o arquivo (disponível aqui) é só abrir o documento na janela do lado esquerdo do programa, indicar o idioma original do texto (no campo “from”) e para qual ele deve ser traduzido (no campo “to”) e clicar em “translate”. O texto traduzido aparecerá na janela do lado direito do programa.
É bacana porque: permite integrar dicionários digitais instalados em seu computador para uma tradução mais refinada.

quinta-feira, 15 de maio de 2014


Dicas para realizar atividades de estudo do meio na EJA

Foto: Elaine Skowronski
Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba. | Foto: Elaine Skowronski
Já ouvi de muitos professores que realizar atividades fora da escola com alunos da EJA “é muito complicado”. De fato, pode ser difícil encontrar locais que sejam adequados e conciliar os horários dos alunos trabalhadores. Às vezes, as saídas exigem gastos extras da escola e dos estudantes, o que é sempre um complicador. Contudo, penso que essas dificuldades não devem nos impedir de organizar esse tipo de atividade.
Realizar um estudo do meio é uma oportunidade muito rica para aprender coisas novas edesenvolver novos olhares. Visitar um local com o objetivo de estudar muda nosso ponto de vista. Às vezes, passamos a notar detalhes com os quais cruzamos cotidianamente, mas que antes nem percebíamos. Além disso, essas atividades favorecem a socialização e a integração da turma, inclusive dos alunos com os professores, aumentando também a motivação para o trabalho em sala.
Entretanto, é importante saber que realizar um estudo do meio não significa visitar um museu importante ou fazer uma viagem de vários quilômetros. Muitas vezes, uma caminhada no entorno da escola pode ser fonte de inúmeros aprendizados, desde que bem pensada e orientada.
Vou dar um exemplo. Conheci um trabalho em que os alunos que usavam o trem para se deslocar da escola para casa foram reunidos em um grupo de estudo. Ao retornar para suas casas, eles tinham a tarefa de observar que características das estações auxiliavam ou atrapalhavam o acesso de pessoas com dificuldade de locomoção. Eles tiraram fotografias e fizeram anotações, que posteriormente foram apresentadas aos colegas na escola, gerando uma discussão bastante interessante sobre os meios de transporte na cidade. Uma viagem cotidiana transformou-se em material de estudo quando os alunos direcionaram seus olhares para uma questão específica; nesse caso, a acessibilidade.
Confira algumas dicas que podem ajudar o professor a planejar um estudo do meio bem sucedido com turmas de EJA:
- Escolha com a turma uma data em que a maioria possa participar. Como grande parte dos alunos trabalha, muitas vezes até nos fins de semana, em geral é preciso avisar com antecedência para a turma se programar.
- Defina um roteiro do que será observado. Sair sem um objetivo específico acaba sendo pouco produtivo e se torna apenas um passeio. Um roteiro direciona o olhar dos alunos, que passam a observar aspectos que não notariam.
- Prepare os alunos antes da saída. É importante organizar a atividade em termos práticos, como, por exemplo, definindo o que é preciso levar (água, lanche, protetor solar, guarda-chuva, lápis e caderno, câmera fotográfica) e o cronograma do dia. Mas também é importante preparar os alunos para observar o que será o foco da saída. Converse sobre o que esperam encontrar, quais são os pontos a serem observados e qual a postura esperada deles.
- Evite sobrecarregar os alunos com atividades durante a saída. Um estudo do meio pretende ser mais que um passeio, mas cuide para que seus alunos tenham a chance de simplesmente aproveitar o ambiente de fora da escola. Já estive em estudos do meio em que a quantidade de atividades deixava os alunos ocupados demais a ponto de não observarem por conta própria o ambiente onde estavam, eliminando a possibilidade de descobertas que os professores não previram.
É importante lembrar que existem muitos locais, como museus e centros culturais, que recebem turmas no período noturno (um exemplo em São Paulo é a Pinacoteca do Estado). Outra possibilidade é combinar um encontro diretamente no local a ser visitado, o que evita a necessidade de organizar transporte para toda a turma.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

A manipulação social do preconceito e da discriminação



“Estou trazendo minha filha pra essa escola porque onde ela estava sofria muita discriminação. É que além de negra, ela é gorda!”
Essa foi a fala de uma mãe para a supervisora pedagógica da escola que receberia a transferência da garota de 7º ano. Na minha cidade, a supervisora tem a função de orientar alunos, professores e famílias, assim como as orientadoras e coordenadoras pedagógicas. Essa supervisora em questão me enviou um e-mail a fim de pensarmos juntas sobre o fato. Compartilho com vocês nossas reflexões.
É interessante começar por entender claramente que a discriminação e o preconceito sãocriações sociais. Portanto, vale dizer que somos, no mínimo, corresponsáveis pelas mais diversas manifestações preconceituosas e discriminatórias presentes no cotidiano das escolas, uma vez que em pleno século 21 ainda testemunhamos cenas em que a intolerância étnica, religiosa ou estética se sobrepõe às relações. Pensando na fala da mãe – “além de negra, ela é gorda!” – parece que por trás da angústia de quem não suporta mais acompanhar o sofrimento da filha, há também certa concordância de que a aparência da garota justifica os maltratos. Essa concordância inconsciente de que algumas características pessoais provocam a discriminação tem atravessado décadas, séculos. Uma das hipóteses que tenho é de que a maneira como algumas escolas têm trabalhado o tema das diferenças, tem, na verdade, reforçado a ideia do preconceito. Ou seja: um trabalho na contramão dos próprios objetivos.
Conversando com a colega que me procurou, indaguei como ela estaria orientando sua equipe de professores quanto ao trabalho com a diversidade. Foi muito interessante perceber o quanto aquela pergunta gerou incômodo. Ela, de forma impulsiva, começou a listar todos os projetos e eventos que a escola promove para debater a diversidade e as diferenças. Com o intuito de conhecer mais detalhes daquele trabalho, insisti na pergunta: “Como você temorientado sua equipe para lidar com as diferenças?”. Porque, afinal de contas, a orientação pedagógica não deve ser um cargo da escola e sim uma função: a de auxiliar alunos, professores e famílias acerca não só das questões ligadas ao desempenho acadêmico dos estudantes, mas também sobre suas relações sociais. O objetivo sempre é o de entender as demandas de cada segmento, considerando as diferentes perspectivas. Voltando às tentativas da colega supervisora em organizar sua resposta, ela então, enfatiza que todo o trabalho era pautado na busca pela igualdade. A partir dessa afirmação, provoquei: “Que igualdade é essa? Igualdade em quê?”. Na verdade, meu propósito era gerar uma reflexão necessária não só para aquela educadora como para muitos outros que reproduzem uma falsa ideia de igualdade.
Em geral, o respeito e a tolerância com a diversidade e as diferenças têm sido a postura pedagogicamente recomendada. Entretanto, se o que se deseja é a igualdade de direitosentre as pessoas, não são suficientes os trabalhos pontuais, projetos de curta duração ou comemorações das datas em que se tenta resgatar, por exemplo, a dívida social que temos em relação aos negros.
O que muitas vezes não pensamos é que não há possibilidade de trabalhar o tema‘diferença’ sem, paralelamente, desenvolver uma proposta de construção da ‘identidade’, isto é, o espaço da identidade reservado para o reconhecimento de quem sou eu: “sou brasileira”, “sou branca”, “sou mulher”. A diferença, de certa forma, marca o que o outro é: “ela é nigeriana”, “ela é negra”, etc… A sociedade é composta por pessoas pertencentes a grupos étnico-raciais distintos e a Educação deve fortalecer a igualdade de direitos, reconhecendo e valorizando as diferentes culturas e histórias presentes em cada grupo. Nessa direção, há a necessidade de conectar os objetivos, as estratégias de ensino e as atividades com a experiência de vida dos alunos e professores. Devemos dar sentido para o conhecimento e criar oportunidades para que as diferenças sejam respeitadas. Essa conexão de diferentes culturas abre um valioso espaço para o desenvolvimento do pensamento crítico tão necessário para a compreensão de que o preconceito, a discriminação e outros inimigos da convivência são produções sociais necessárias para a manutenção das disparidades de poder.
Retomando nosso caso, a notícia que tive da colega supervisora foi que ao menos um dos professores que ela orienta adotou em suas aulas as práticas dialógicas e reflexivas. Além dos círculos de cultura (momento em que os alunos compartilham conhecimentos e experiências próprias), ele abriu espaço para que os estudantes colocassem o que lhes desperta interesse, e com base nisso fomentou o trabalho de pesquisa para responder às demandas dos alunos. Procurei esse docente para saber quais temas de interesse teriam surgido entre os estudantes. Além das curiosidades naturais sobre reprodução humana e sexo, ele me contou que a garota ‘negra e gorda’, num determinado dia, sentindo-se mais segura e acolhida, compartilhou com a sala todo o sofrimento vivido na antiga escola. Do depoimento da supervisora, mais um tema surgiu como interesse de pesquisa: por que existe a maldade? De onde ela vem? E claro que sugeri ao professor que acrescentasse a essas, outras perguntas: por que existe o preconceito, a discriminação? De onde eles surgem?
Podemos concluir que a escola, antes de celebrar a diferença e a diversidade por meio de exposições e apresentações diversas, deve promover e incentivar os estudantes a questioná-las.
Como disparador do trabalho, fica a dica de levar para a sala de aula a música Ser Diferente é Normal, dos compositores Adilson Xavier e Vinícius Castro. E para seu aprofundamento no tema, vale conhecer o livro “Documentos de Identidade – Uma Introdução às Teorias do Currículo”, de Tomaz Tadeu da Silva (Editora Autêntica, 156 páginas).

terça-feira, 13 de maio de 2014


Alunos migrantes na EJA: o livro que me levou a uma reflexão profunda.

Edição de arte: Vilmar Oliveira
“Caminhando sobre fronteiras: o papel da educação na vida de adultos migrantes”, de Fernando Frochtengarten
Assim como muitos professores, quando comecei a dar aulas na EJA, senti-me desorientado e pesquisei leituras que me apontassem caminhos. Um pouco pelas circunstâncias, um pouco por sorte, o primeiro livro que caiu em minhas mãos foi “Caminhando sobre fronteiras: o papel da educação na vida de adultos migrantes”, de Fernando Frochtengarten.
Fernando também é professor de Ciências e meu colega de trabalho. Quando o conheci, ele lecionava para as séries imediatamente anteriores às que eu acabava de assumir. Já havíamos conversado bastante a respeito das turmas e sobre sua experiência com os adultos. Sem dar detalhes, ele também contou que havia concluído há pouco tempo seu trabalho de doutorado na área de Psicologia Social.
Porém, o que ele não mencionou foi que havia acabado de publicar um livro com o conteúdo desse trabalho. E que, além de fazer reflexões profundas acerca dos estudantes adultos, o livro trazia entrevistas com nossos alunos. Provavelmente, eu iria ler o livro mais cedo ou mais tarde. Mas, aí entra a sorte: ganhei exatamente esse livro de presente de uma amiga professora!
Para mim, a leitura foi uma introdução excelente ao universo da Educação de Jovens e Adultos. O tema central é a transição dos alunos da vida rural para a vida urbana e, ao mesmo tempo, da condição de analfabetos ou pouco escolarizados para a de escolarizados. Fernando viajou até os locais de origem de alguns estudantes para compreender melhor essa passagem e o papel da escola nesse processo.
O livro analisa de forma rica e sensível o choque cultural decorrente dessas transições, a diferença de ritmos no campo e na cidade, o contraste entre o conhecimento popular e o escolar.  Ao longo da leitura, sentimos o professor de Ciências sendo gradualmente envolvido pelo universo dos alunos e sendo transformado por ele. Eis uma pequena amostra:
“Em meio às férteis conversas com aquele tremedalense de nome Dilson, eu já tentara contrastar meus conhecimentos com aqueles que eram dos homens locais. A título de exemplo, contei que eu conhecia a importância da paina para a dispersão das sementes do algodoeiro, mas até o dia anterior jamais vira a sua colheita. Dando a impressão de que muito já pensar a esse respeito, ele deu seu parecer: ‘A gente aqui tem conhecimentos sem conhecimento’”.
Recheado de depoimentos de alunos, a obra tem uma leitura fácil e enriquecedora. Com ela, aprendi que o conhecimento popular e o acadêmico devem ser analisados criticamente, de forma a se completarem e jamais serem apresentados como opostos.