quinta-feira, 7 de maio de 2015

Risquinho, bolinha ou número para contar


Um bom trabalho didático sobre o sistema de numeração e registros escritos deve prever situações em que as crianças possam explorar as diversas formas de notação, refletir sobre a adequação de cada uma delas em relação às necessidades e discutir sobre o significado da representação por meio dos números. Foi esse o caminho que Aline Dezengrini de Souza propôs para a sala de pré-escola da EEI do Sesc, em Santo Ângelo, a 435 quilômetros de Porto Alegre. 

Aline levou uma coleção de carrinhos para a sala e pediu que cada um escrevesse em uma folha quantos havia. Vários tipos de registro surgiram: representações dos carrinhos, bolinhas, pauzinhos e algarismos. Alguns perceberam que os colegas estavam anotando de formas diferentes e ficaram desconfortáveis com a situação, dizendo: "Ele está fazendo errado!" e "Pode ser do jeito que ele fez?".

Começaram, então, a apagar o que haviam escrito e Aline interveio: "Por que você está apagando? Acha que o jeito que o colega anotou é melhor do que o seu?". Uma garota justificou ter desistido de desenhar bolinhas porque carrinhos eram uma forma mais bonita de registrar. Outra, que tinha anotado com pauzinhos, disse que demorava mais para desenhar. 

Aline começou, então, a problematizar as quantidades. Separou a turma em duplas para que pudessem comparar suas notações. Crianças que marcaram errado resolveram riscar os carrinhos a mais e outras apagar. Houve ainda quem desenhasse tudo outra vez. A professora questionou por que fazer isso, mesmo que alguns estivessem certos e disse que havia a opção de acrescentar ou diminuir marcações. 

Susana Wolman, no livro Letras y Números: Alternativas Didácticas para Jardín de Infantes y Primer Ciclo de la EGB (256 págs., Ed. Santillana, sem tradução para o português), reproduz a discussão entre uma educadora e a sua turma sobre se um algarismo poderia representar mais de um objeto. Ainda que os pequenos concordassem que números eram boas formas de registro, achavam que cada algarismo poderia representar um único objeto. "Compreender a utilização dos algarismos é um processo que leva tempo e requer uma diversidade de situações que envolvam distintos usos dos números: como código, para indicar localização e ordem de atendimento, entre outros usos sociais.

O professor deve explorar quais estratégias são mais eficientes para cada situação", explica Priscila Monteiro, consultora pedagógica da Fundação Victor Civita (FVC).


Guerra dos dados 

Outra atividade interessante usando registros escritos de quantidades foi feita por Andreia Amorim dos Santos, que leciona na EMEI Maria Alice Pasquarelli, em São José dos Campos, a 90 quilômetros de São Paulo. Ela apresentou à sala o jogo guerra dos dados. Para começar a brincadeira, formou dois grupos, que seriam adversários. Em todas as rodadas, um integrante de cada equipe jogava o dado e anotava a pontuação obtida no quadro. O grupo vencedor seria aquele que atingisse mais pontos. 

Na hora de descobrir quem havia vencido, a professora pediu que um membro de cada grupo fosse até o quadro e contabilizasse os pontos. Logo começou uma discussão na sala, já que havia anotações de diferentes formas, como bolinhas, pauzinhos, algarismos e sequências de números. Todas aquelas formas de registro permitiam saber qual era a equipe vencedora? Era o que todos mais queriam saber. 

Na primeira tentativa, os dois incumbidos de contar os pontos começaram a tarefa pelos pauzinhos e riscaram cada um dos contabilizados, para não se perderem. No entanto, pararam ao chegar aos algarismos, pois não sabiam como somar.

Resolveram contá-los como se cada um representasse um ponto. Os colegas logo interferiram: "Você não pode contar o número 5 como uma coisa...", "São 5 coisas!". 

Andreia convidou todos para realizar a tarefa coletivamente e fez algumas intervenções. Disse que eles deveriam contar os pontos um por um. Então, quando chegaram novamente nos algarismos, perguntou como resolver o problema. Um menino sugeriu transformar o número em pauzinhos, para que fosse possível somar. Todos concordaram e assim foi feito. 

Sobre essa discussão, protagonizada pelos pequenos, Camilla Schiavo Ritzmann, formadora do Instituto Avisa Lá, explica: "As crianças precisam dos pauzinhos para contar, já que não são autônomas nos cálculos numéricos. É importante que se esforcem para criar estratégias, não cabendo ao professor apontar as saídas. No entanto, ele pode retomar o debate no futuro para incentivar a criação de outros caminhos". 

Passados alguns minutos, a docente perguntou novamente qual havia sido o resultado. Ninguém se lembrava, e a contagem recomeçou. Andreia indagou, então: "Que tipo de registro podemos usar para não ter de contar todos os pauzinhos cada vez que quisermos saber a pontuação das equipes?". "Em número, para saber quem ganhou sem demorar", sugeriu Isaac Pace dos Santos, 5 anos. "Senão tem de contar de um em um tudo de novo e demora", completou Thainá de Oliveira Alvarenga, 4 anos. Era o que Andreia precisava para propor que a turma pensasse sobre os registros mais úteis para cada necessidade. Como não sabiam somar, pauzinhos eram bons para contabilizar os pontos. Para o resultado total, números eram mais úteis. 

Na hora de registrar as quantidades finais de pontos, os pequenos foram buscar os valores correspondentes na reta numérica (do 1 ao 50). Uma nova discussão se iniciou. Um grupo havia conseguido 36 pontos e o outro 39. Como o 36 apareceu antes, as crianças acharam, então, que a equipe que tinha conquistado esse total era a ganhadora. Andreia questionou: "Os números maiores ficam no começo ou no fim da reta?".

Elas disseram que ficavam mais próximos do fim, concluindo que o grupo vencedor era o que tinha atingido 39 pontos. Sobre a sequência didática da professora Andreia, Camilla completa: "O que faz diferença para a criança é participar dessas discussões frequentemente. Afinal, uma boa aprendizagem da numeração escrita, abrangendo a compreensão do sistema, influencia na construção de conceitos matemáticos".

Recursos online para elaboração dos Planos Municipais de Educação


O prazo de um ano para que estados e municípios elaborem seus Planos de Educação se encerrará em menos de dois meses, no dia 24 de junho. Apenas 3 dos 27 estados e 76 dos 5570 municípios já sancionaram seus planos.
De acordo com o portal Planejando a Próxima Década, 40% do total de municípios sequer concluiu o trabalho de diagnóstico, primeira etapa da construção do plano. Apesar disso, o prazo está mantido. No programa Bom dia, Ministro, Renato Janine Ribeiro, à frente da pasta da Educação disse que “o MEC não quer que os estados e as prefeituras se sintam coagidos com o prazo e acabem comprando um plano pronto de Educação, que não vai emanar de uma discussão da sociedade. O mais importante é a sociedade se mobilizar e discutir o que quer para a Educação.”
A tarefa é uma exigência do Plano Nacional de Educação (PNE), que definiu as diretrizes, metas e estratégias da Educação do país para a próxima década. Estados e municípios devem elaborar seus planos correspondentes ou adequar os planos já aprovados em lei a partir das orientações previstas no plano nacional.
Como explica Carlos Roberto Jamil Cury na matéria “PNE: depois do nacional, o local“, da revista GESTÃO ESCOLAR, “apesar de os planos municipais e estaduais terem que ser desenvolvidos em consonância com as metas do PNE, eles não devem ser meros reprodutores daquilo que já está aprovado. É preciso levar em conta a realidade local e traçar estratégias que sejam compatíveis com ela.”
Daí a preocupação do MEC em assegurar a ampla participação da sociedade civil: apenas um processo democrático pode garantir que os problemas e as demandas sociais sejam captados e atendidos, além de contribuir para que boas propostas e experiências sejam identificadas. A construção do plano, segundo o MEC, deve envolver cinco etapas: instituir a Comissão Coordenadora, realizar o diagnóstico e elaborar o documento-base (metas, estratégias e indicadores de monitoramento), abrir para consulta pública, redigir o projeto de lei e acompanhar a tramitação legislativa.
Os professores, como cidadãos e parte diretamente interessada nos resultados deste processo, podem e devem se informar sobre os planos locais de Educação e acompanhar os trâmites em sua cidade a fim de cobrar que um bom plano seja aprovado.
Reunimos alguns recursos disponíveis para entender, acompanhar e participar:
Na fase do diagnóstico, o objetivo é ter um retrato quantitativo e qualitativo da Educação no estado ou no município. Ele dará sustentação para as escolhas das metas e estratégias a serem priorizadas.
O primeiro passo é levantar os dados, como a estrutura física das escolas, a série histórica do Ideb, a distorção idade-série em cada etapa de ensino, entre outros, que deverão ser interpretados e contextualizados.
O site QEdu, iniciativa da Meritt com a Fundação Lemann, reúne em uma plataforma intuitiva e visual dados educacionais da Prova Brasil, do Censo Escolar e do Ideb de cada escola, município e estado.
2. Planejando a Próxima Década
http://pne.mec.gov.br/
Plataforma oficial do MEC, o portal Planejando a Próxima Década reúne diversos documentos e materiais de apoio para elaboração dos planos municipais de educação,além de diferentesferramentas de consulta a dados como o Ideb, indicadores demográficos e educacionais, informações sociais e repasse de receitas federais para estados e municípios.
Há também um mapa para acompanhar a situação atual de estados e municípios em relação às cinco etapas de elaboração dos planos locais.
3. Observatório do PNE
http://www.observatoriodopne.org.br/
O Observatório do PNE é uma ferramenta riquíssima para entender mais sobre o PNE como um todo. Ela mantém um painel para cada uma das 20 metas estabelecidas pelo PNE. Nele, é possível acompanhar os indicadores (dados atuais e dados que devem ser alcançados até 2024), notícias, análises e estratégias relacionados à meta. É possível pesquisar e fazer o download de um “dossiê” local, com todas as informações de um estado ou município.
Há ainda, um painel geral do PNE, com linha do tempo e informações que permitem uma visão panorâmica do desenvolvimento do Plano.
O Observatório do PNE é uma iniciativa de 20 organizações ligadas à Educação e coordenada pelo grupo Todos Pela Educação. A Fundação Victor Civita apoia o projeto, cuidando especialmente das metas 15 e 16, que tratam sobre a formação inicial e continuada dos professores da Educação Básica.
O projeto De Olho nos Planos foca no estímulo de processos participativos e é composto por diversas ações, entre elas, um portal colaborativo com dados municipais da Educação, mapa nacional de acompanhamento da situação dos planos, espaço para gestores escolares registrarem informações sobre a elaboração dos planos em sua cidade, além da Coleção de Olho nos Planos, documentos que orientam como promover a participação da sociedade civil na gestão democrática e também nas ferramentas de controle social, e da Rede de Olho nos Planos, um espaço colaborativo para troca de informações e experiências. Após fazer um cadastro, é possível adicionar amigos e participar das comunidades de discussão.
O projeto é uma iniciativa da Ação Educativa, Campanha Nacional pelo Direito à Educação, União dos Conselhos Municipais de Educação (UNCME), União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), e tem apoio da UNICEF e do Instituto C&A.
A plataforma foi feita para ajudar as Secretarias Municipais de Educação a elaborarem seus próprios planos de Educação. Nela, além de orientações e documentos sobre a construção do plano, os gestores e suas equipes têm acesso a uma ferramenta para registro detalhado de cada uma das etapas, desde o diagnóstico, passando pela elaboração das metas, estratégias e ações, até o monitoramento dos indicadores para acompanhar a implementação do plano.
O Conviva Educação é fruto de uma parceira entre 11 organizações da sociedade civil, entre elas a Fundação Victor Civita, e tem o apoio da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e da União Nacional dos Conselhos Municipais de Educação (Uncme).
O acesso ao ambiente, por enquanto, é restrito às Secretarias Municipais de Educação, porém os vídeos de formação estão disponíveis para todos:http://convivaeducacao.org.br/videos#videoconferencias

quarta-feira, 6 de maio de 2015

ECOPEDAGOGIA


Léo Valença é cartunista carioca e dedica-se desde 2002 à produção de cartuns para divulgar a importância do meio ambiente. De forma bem humorada, amorosa e crítica, ele vislumbra possibilidades
educativas para ensinar crianças e adultos aprenderem a amar o planeta Terra.

Veja a matéria com Léo Valença no Papo de Mãe:

Papo de mãe/link/texto: Na reportagem de Fernanda de Luca, vamos conhecer as invenções sustentáveis do jovem Raphael (16). Diretamente de Viana, no Maranhão, a repórter Tatiane Costa mostra como é viver numa região de muita seca. A repórter Letícia Bragaglia conversa com o povo nas ruas de São Paulo para saber como as pessoas estão fazendo para economizarágua. E tem ainda a participação por vídeo de Léo Valença, cartunista e autor do “Almanaque Ecológico do Lucas”. Veja o link/reportagem completa/aqui/.


Será que cabe à escola comemorar o Dia das Mães?


Dia das Mães está chegando… Essa data é uma das mais tradicionais e também uma das mais polêmicas. Há quem a ache muito adequada para valorizar o papel da mãe. Por outro lado, algumas pessoas vêm na comemoração um apelo comercial, com muita ênfase no consumismo.
E na escola, é pertinente haver uma comemoração desse dia? É papel da instituição ou essa é uma data restrita ao âmbito familiar?
Na Educação Infantil, mais do que nas outras etapas da Educação Básica, é muito comum haver um planejamento específico para o Dia das Mães. Os argumentos a favor mais comuns são de que ele é uma tradição, uma oportunidade de trazer a família para a escola e de demonstrar que a data não é puramente comercial e uma abertura para elaborar um projeto de sarau de poesias ou de confecção de lembranças com participação ativa das crianças.
Por outro lado, os educadores que são contra a comemoração argumentam que datas festivas como a Páscoa, o Dia das Mães ou dos Pais e o Natal dependem da concepção e das crenças de cada família e que a escola precisa ter clareza qual é o seu papel, que é o de assegurar as aprendizagens. Além disso, essas comemorações incentivam o consumismo.
Pois é… São muitos os argumentos de ambos os lados e debatê-los é bem interessante. Por isso, gostaria de deixar algumas questões para refletirmos juntos. As famílias possuem diferentes configurações e não seguem, necessariamente, a fórmula mãe, pai e filhos. Então, qual o sentido de persistir no estereótipo? Querer que a família participe da escola é uma preocupação constante. Valorizar o Dia das Mães, convidando-as para um evento, seria uma boa oportunidade para isso?  Será que estamos propiciando situações de aprendizagens para os pequenos quando fazemos uma festa para homenagear as mães? E por último, o trabalho e o custo de organizar um evento assim vale a pena, se nosso foco são as situações didáticas onde as crianças são as protagonistas?
Como todos os outros temas, este também merece reflexão, atualização e, acima de tudo, discussão coletiva. Conhecer a realidade das turmas da escola em que você trabalha te ajudará a encontrar a melhor maneira de conduzir a proposta para essa e outras datas e, principalmente, a fazer uma educação pautada num planejamento coerente.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Mãos à horta para incentivar a cooperação e deixar a merenda mais saudável



Olá,

Há alguns anos, conheci a diretora Aldilene Moraes Gomes, da Escola Núcleo Municipal Cândido Vitoriano de Cerqueira, em Feira de Santana, na Bahia. Ela me contou, toda orgulhosa, que o único computador e a impressora que a escola possuía naquela época tinham sido conquistados graças ao projeto “Horta na Escola”, que venceu o 2º Prêmio Rigesa de Educação Ambiental. “Esse equipamento representa a cooperação entre alunos, professores, pais e a comunidade”, ela disse na ocasião.
Essa história começou quando a professora de Ciências da instituição, Márcia Silva Ribeiro, sentiu a necessidade de aproveitar algum cantinho para deixar as famílias dos alunos mais próximas das atividades. Então, com base no conteúdo ligado ao tema solo, os estudantes – principalmente dos 5º e 6º anos – pesquisaram como preparar o adubo orgânico e começaram a fazer compostagem. As sementeiras foram produzidas com garrafas de plástico cortadas ao meio, os canteiros foram planejados nas aulas de Matemática sobre geometria e operações, os conteúdos de Geografia colaboraram com as informações sobre solo e, na Educação Física, aprenderam sobre a importância dos alimentos para a saúde e como os atletas, de diferentes modalidades esportivas, se alimentam de acordo com as atividades que realizam.
Durante a semana, os pais ajudavam com a experiência pessoal que tinham sobre o plantio de hortaliças. Até um vizinho se envolveu e colaborou levando água para regar os canteiros nos períodos de estiagem, uma vez que a escola ficava muito afastada da cidade. Boa parte da produção ia para a merenda e outra era vendida. Com o valor arrecadado, a direção comprou materiais como bolas, sempre discutindo antes a melhor aplicação dos recursos nas reuniões com os pais.
Tudo isso me trouxe uma alegria muito grande ao perceber a instituição aplicando efetivamente a transdisciplinaridade da Educação ambiental e, claro, foi um fator decisivo para alcançar a premiação dos jurados!
Conforme os relatos da professora Márcia, os alimentos cultivados – couve, coentro, tomate, rúcula e manjericão – deixaram a merenda mais gostosa e muitos alunos que nem comiam verduras antes passaram a gostar da novidade. Além disso, eles levaram os novos hábitos alimentares e a ideia da horta para seus pais.

Lembro que essa escola não foi a única do Nordeste a perceber a possibilidade de um projeto desse tipo ser um elemento aglutinador da comunidade para a questão ambiental, mesmo lidando com condições adversas como foi o caso da EEF Francisco Cosmo da Silva, de Pacajus, no Ceará. A professora Cristiane Ferreira dos Santos relatou que uma horta que eles possuíam nunca se desenvolvia bem porque a água da região era salgada demais. Foi então que os próprios alunos sugeriram mudar a plantação de lugar. Eles estudaram as melhores opções do terreno, se organizaram e fizeram um canteiro que deu muito certo, porque, além da qualidade da água, a terra também era muito boa. As turmas ficaram animadas com os resultados e o trabalho em equipe colaborou para os professores abordarem valores como a cooperação e a persistência.
De lá para cá, sei que a horta é um dos projetos favoritos dessas escolas e tenho certeza que muitas instituições, talvez a sua, têm belos exemplos para compartilhar. Entretanto, ainda há quem pense que são necessários grandes espaços para o desenvolvimento de um plantio e isso não é verdade. O reaproveitamento de materiais recicláveis como garrafas plásticas cortadas e caixas plásticas com furos específicos para o escoamento da água da rega, canos de PVC cortados ao meio, além de pequenos vasos são bons recipientes para organizar, mesmo que seja em uma sala de aula, pequenos canteiros.
Independentemente do tamanho, eu quero chamar a atenção para algo que não deve acontecer num projeto desse tipo: ter a ideia da horta, implementá-la para o uso durante o projeto e depois abandoná-la. Isso não é nada sustentável e deixa um exemplo nada inspirador para os alunos e a comunidade!
Para colaborar com seu planejamento, dê uma olhada nesta série de vídeos que ensinam como implantar uma horta orgânica. É só colocar as legendas em português e aproveitar.
Desejo um ótimo trabalho e espero que esse projeto possa fazer parte da estrutura da sua escola, de forma contínua e permanente, assim como os livros e os cadernos.

Mensagem de Andrée de Ridder Vieira, consultora em Educação pela sustentabilidade e coordenadora geral do Instituto Supereco - Blog Sustentabilidade na Escola.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Escola inclusiva

Em escolas projetadas para todos, a altura do mobiliário, o espaço entre as estantes e as mesas, a localização de bebedouros, o tipo de piso, as cores dos ambientes e outros cuidados garantem que as pessoas, não só com deficiência, possam se locomover com segurança e autonomia


Acesse o Intográfico: Clique Aquil


CONHEÇA: Anísio Teixeira

Considerado o principal idealizador das grandes mudanças que marcaram a educação brasileira no século 20, Anísio Teixeira (1900-1971) foi pioneiro na implantação de escolas públicas de todos os níveis, que refletiam seu objetivo de oferecer educação gratuita para todos. Como teórico da educação, Anísio não se preocupava em defender apenas suas idéias. Muitas delas eram inspiradas na filosofia de John Dewey (1852-1952), de quem foi aluno ao fazer um curso de pós-graduação nos Estados Unidos. 
Dewey considerava a educação uma constante reconstrução da experiência. Foi esse pragmatismo, observa a professora Maria Cristina Leal, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, que impulsionou Anísio a se projetar para além do papel de gestor das reformas educacionais e atuar também como filósofo da educação. A marca do pensador Anísio era uma atitude de inquietação permanente diante dos fatos, considerando a verdade não como algo definitivo, mas que se busca continuamente. 

Para o pragmatismo, o mundo em transformação requer um novo tipo de homem consciente e bem preparado para resolver seus próprios problemas acompanhando a tríplice revolução da vida atual: intelectual, pelo incremento das ciências; industrial, pela tecnologia; e social, pela democracia. Essa concepção exige, segundo Anísio, "uma educação em mudança permanente, em permanente reconstrução".
As novas responsabilidades da escola eram, portanto, educar em vez de instruir; formar homens livres em vez de homens dóceis; preparar para um futuro incerto em vez de transmitir um passado claro; e ensinar a viver com mais inteligência, mais tolerância e mais felicidade. Para isso, seria preciso reformar a escola, começando por dar a ela uma nova visão da psicologia infantil. 

O próprio ato de aprender, dizia Anísio, durante muito tempo significou simples memorização; depois seu sentido passou a incluir a compreensão e a expressão do que fora ensinado; por último, envolveu algo mais: ganhar um modo de agir. Só aprendemos quando assimilamos uma coisa de tal jeito que, chegado o momento oportuno, sabemos agir de acordo com o aprendido. 

Para o pensador, não se aprendem apenas idéias ou fatos mas também atitudes, ideais e senso crítico - desde que a escola disponha de condições para exercitá-los. Assim, uma 
criança só pode praticar a bondade em uma escola onde haja condições reais para desenvolver o sentimento. A nova psicologia da aprendizagem obriga a escola a se transformar num local onde se vive e não em um centro preparatório para a vida. Como não aprendemos tudo o que praticamos, e sim aquilo que nos dá satisfação, o interesse do aluno deve orientar o que ele vai aprender. Portanto, é preciso que ele escolha suas atividades. 

Por tudo isso, na escola progressiva as matérias escolares - Matemática, Ciências, Artes etc. - são trabalhadas dentro de uma atividade escolhida e projetada pelos alunos, fornecendo a eles formas de desenvolver sua personalidade no meio em que vivem. Nesse tipo de escola, estudo é o esforço para resolver um problema ou executar um projeto, e ensinar é guiar o aluno em uma atividade. 

Quanto à disciplina, Anísio afirmava que o homem educado é aquele que sabe ir e vir com segurança, pensar com clareza, querer com firmeza e agir com tenacidade. Numa escola democrática, mestres e alunos devem trabalhar em liberdade, desenvolvendo a confiança mútua, e o professor deve incentivar o aluno a pensar e julgar por si mesmo. "Estamos passando de uma civilização baseada em uma autoridade externa para uma baseada na autoridade interna de cada um de nós", diz ele em seu livro Pequena Introdução à Filosofia da Educação. 

Como preparar o professor para essa tarefa hercúlea da escola de hoje, ocupada por tantos alunos que não se contentam em aprender apenas as técnicas e conhecimentos mais simples mas também as últimas conquistas da ciência e da cultura? O que fazer quando eles exigem informações até mesmo sobre tendências indefinidas e problemas sem solução? Para responder a tantas questões, os educadores do mundo todo precisarão de novos elementos de cultura, de estudos e de recursos, propôs o pensador, que na prática instalou novos cursos para professores. Só assim, dizia, os mestres tentarão renovar a humanidade para "a grande aventura de democracia que ainda não foi tentada". 

Para ser eficiente, dizia Anísio, a escola pública para todos deve ser de tempo integral para professores e alunos, como a Escola Parque por ele fundada em 1950 em Salvador, que mais tarde inspiraria os Centros Integrados de Educação Pública (Cieps) do Rio de Janeiro e as demais propostas de escolas de tempo integral que se sucederam. Cuidando desde a higiene e saúde da criança até sua preparação para a cidadania, essa escola é apontada como solução para a educação primária no livro Educação Não É Privilégio. Além de integral, pública, laica e obrigatória, ela deveria ser também municipalizada, para atender aos interesses de cada comunidade. O ensino público deveria ser articulado numa rede até a universidade. Anísio propôs ainda a criação de fundos financeiros para a educação, mas, mesmo com o atual Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), os recursos são insuficientes para sustentar esse modelo de escola.

Anísio Spínola Teixeira nasceu em 12 de julho de 1900 em Caetité (BA). Filho de fazendeiro, estudou em colégios de jesuítas na Bahia e cursou direito no Rio de Janeiro. Diplomou-se em 1922 e em 1924 já era inspetor-geral do Ensino na Bahia. Viajando pela Europa em 1925, observou os sistemas de ensino da Espanha, Bélgica, Itália e França e com o mesmo objetivo fez duas viagens aos Estados Unidos entre1927 e 1929. De volta ao Brasil, foi nomeado diretor de Instrução Pública do Rio de Janeiro, onde criou entre 1931 e 1935 uma rede municipal de ensino que ia da escola primária à universidade. Perseguido pela ditadura Vargas, demitiu-se do cargo em 1936 e regressou à Bahia - onde assumiu a pasta da Educação em 1947. Sua atuação à frente do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos a partir de 1952, valorizando a pesquisa educacional no país, chegou a ser considerada tão significativa quanto a Semana da Arte Moderna ou a fundação da Universidade de São Paulo. Com a instauração do governo militar em 1964, deixou o instituto - que hoje leva seu nome - e foi lecionar em universidades americanas, de onde voltou em 1965 para continuar atuando como membro do Conselho Federal de Educação. Morreu no Rio de Janeiro em março de 1971.


Nos anos 1920, com a crescente industrialização e a urbanização em todo o mundo, a necessidade de preparar o país para o desenvolvimento levou um grupo de intelectuais brasileiros a se interessar pela educação - vista como elemento central para remodelar o país. Os novos teóricos viam num sistema estatal de ensino livre e aberto o único meio efetivo de combate às desigualdades sociais. Esse movimento chamado de Escola Nova ganhou força nos anos 1930, principalmente após a divulgação, em 1932, do Manifesto da Escola Nova. O documento pregava a universalização da escola pública, laica e gratuita. Entre os nomes de vanguarda que o assinaram estavam, além de Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo (1894-1974), que aplicou a sociologia à educação e reformou o ensino em São Paulo nos anos 1930, o professor Lourenço Filho (1897-1970) e a poetisa Cecília Meireles (1901-1964). A atuação desses pioneiros se estendeu por décadas, muitas vezes criticada pelos defensores da escola particular e religiosa. Mas eles ampliaram sua atuação e influenciaram uma nova geração de educadores como Darcy Ribeiro (1922-1997) e Florestan Fernandes (1920-1995). Anísio foi mentor de duas universidades: a do Distrito Federal, no Rio de Janeiro, desmembrada pela ditadura de Getúlio Vargas, e a de Brasília, da qual era reitor quando do golpe militar de 1964.